A política, a economia e os sonhos

Tomislav R. Femenick – Mestre em economia e historiador

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Remontam a Aristóteles, trezentos anos antes de Cristo, as primeiras observações teóricas que ligam a economia à política, estudos esses que foram retomados por Montchrétien, dois mil anos mais tarde, e continuados por Adam Smith, David Ricardo, Marx, Engels e muitos outros teóricos. As diferentes abordagens desses pensadores estão nas suas interpretações sobre o papel do governo com relação à produção, à renda, ao consumo, à proteção aos produtos nacionais, ao ganho dos trabalhadores etc.

            Atualmente o termo “economia política” é mais comunmente usado para identificar os trabalhos que se apoiam em várias disciplinas – tais como a própria economia, o direito, a sociologia, a matemática e as ciências políticas –, objetivando evidenciar uma visão conjunta dos fatores e eventos que são agentes das atividades econômicas, bem como interpretar seus reflexos na produção e nas condições do bem estar da sociedade.

            No Brasil temos inúmeros exemplos de atos governamentais que afetaram a economia. Uns deram bons resultados, outros nem tanto e alguns foram desastrosos. Na lista dos bons, por exemplo, pode-se citar o pragmatismo de Getulio Vargas com o início de nossa indústria de base com a criação da Cia. Siderúrgica Nacional e da Petrobras; a implantação da indústria automobilística por Juscelino Kubitschek; a ampliação da infraestrutura de transporte e comunicação pelos governos militares; a reestruturação econômica (com o Plano Real) e o início da reforma fiscal, implantadas por Fernando Henrique Cardoso, e a ampliação da política social, realizada pelos governos Lula e Dilma. Na relação dos nem tanto bons, há as tentativas de revitalização da indústria naval efetuada pelos generais presidentes. No rol dos desastres, têm lugar garantido os Planos Sarney e Collor que, ao tentar segurar a inflação nada mais fizeram que incentivar seu crescimento acelerado.

            Ao analisar esses fatos se constata que os desacertos, acontecidos na história econômica nacional das últimas décadas, resultam do caráter messiânico dos governos que o realizaram. A reconquista da democracia e a trágica morte de Tancredo Neves deram a Sarney e a seu Ministro da Fazenda, Dílson Funaro, um caráter de salvadores da pátria. Deu no que deu. Fernando Collor de Melo, que se via e era visto como a mola do modernismo, terminou cassado, depois de confiscar a poupança do povo e de jogar o país em nova crise inflacionária.

            Na realidade, nós brasileiros somos mais emocionais que racionais e, além dos mais, sempre queremos que um salvador venha nos tirar das nossas dificuldades. No entanto, em economia não há milagres; a razão prevalece sobre as emoções.

            Agora um novo acontecimento funesto atinge a política nacional. A morte prematura de Eduardo Campos, candidato a presidente da República pelo PSB, fez com que Marina Silva, sua candidata à vice, assumisse novamente a posição de candidata ao cargo máximo do poder Executivo do país. A tragédia e a forte exposição na mídia a levaram ao segundo lugar nas pesquisas, ponto antes ocupado por Aécio Neves, candidato do PSDB.

            Nesse novo cenário político é importante que se analise o que poderá acontecer com a economia, caso Marina Silva seja eleita Presidente da República. “Sonhática” e messiânica, ela pode novamente levar o país pelos caminhos da instabilidade, da incerteza ou, talvez, pode nos levar de volta à trilha do desenvolvimento. O grande perigo são suas atitudes exacerbadas com relação à ecologia, muitas vezes saindo da posição de análise para simplesmente ser crítica, o que pode travar o crescimento econômico. Um alerta deve ser dado: na economia os sonhos somente têm vez se foram pragmáticos; do contrário se tornam pesadelos. E disso nós temos experiência de sobra.

Tribuna do Norte. Natal, 24 ago. 2014.