A parte de baixo

vinheta172

O bilhete dizia: “Cansei. Tchau”. Desapareceu sem deixar notícias ou rastro algum. Junto com o bilhete deixou também o livro onde fazia algumas anotações; um misto de agenda e diário. Não um diário daqueles de antigamente, onde as moças escreviam o que lhes acontecia e suas opiniões. Não. Ela não era dada a isso. Eram anotações simples, tipo: “As 12:00h, almoço com ex-colegas da faculdade”. E, logo em se­guida: “Um saco. Nada tenho em comum com elas ou com eles”. Ou senão: “Tenho que comprar escova de dente”.

Thalita tinha 27 anos, há quatro era funcionária de um banco (onde entrara por concurso e era gerente), não tinha namorado fixo e morava com o irmão (mais moço e estu­dante de biologia marinha) no amplo apartamento 315, de um prédio residencial. Mal se falavam, pois dificilmente se encontravam em casa. Tinha poucos amigos. Com eles, nos fins de semanas frequentava alguns barzinhos e aos domin­gos ia à praia. Raramente visitava as duas primas. Trabalha­va para ocupar o tempo, pois a herança deixada por seus pais era suficiente para viver a vida toda sem se preocupar com nada, desde que não esbanjasse.

Ela só reclamava de uma coisa: do calor. Detestava o ca­lor, o suor, o molhado pegajoso, as mãos úmidas e o cabelo pregado na nuca. Detestava mais ainda quando sentia as roupas íntimas se grudarem em seu corpo como se fossem enguias ou sanguessugas, quando a parte de baixo da cal­cinha enrolava e assava as virilhas. Nos dias mais quentes se trancava no quanto, ligava o ar condicionado, baixava as persianas e, nua, se deixava embalar pelo frescor. Achava que era por causa do sol e dessa temperatura abrasadora que, nos trópicos, todos eram lentos, lânguidos.

Quando o irmão retornou da viagem de estudo que fazia em um barco de pesca e encontrou o bilhete, procurou o porteiro do prédio onde moravam e soube que, dois dias antes, Thalita saíra de casa com duas malas e pegara um táxi. Depois de ter recebido um telefonema do banco pro­curando por ela e depois de uma semana sem ter notícias, foi procurar a polícia, mas esta também não achou nada. Nenhuma pista foi encontrada na estação rodoviária, no ae­roporto ou em lugar algum. Era como se ela tivesse sumido nas asas do vento.

Alguns anos depois, outro táxi parou na porta do prédio e dele desceu uma mulher com duas outras malas. Chamou o porteiro e mandou levar as malas para o aparta­mento 315, que abriu com sua chave. Thalita estava de vol­ta, como que trazida por um tapete voador. Interrogada pelo irmão, pelos ex-colegas de emprego e pelos amigos, nunca revelou nada. Recompôs a vida, conseguiu outro emprego com a mesma função, agora em um banco particular. Man­tinha os mesmo hábitos de antes; os barzinhos, a praia e as visitas às primas, agora ambas casadas. De vez enquanto, ia à casa dos tios. Sobre o que fez no tempo em que estava desaparecida, permanecia muda. As únicas mudanças no­tadas pelos seus amigos eram que agora estava mais solta, mais extrovertida, namorava mais e que estava gostando de tango.

No dia do noivado do irmão, deram uma festa. Ela cui­dou de tudo, da arrumação do apartamento, da comida, das bebidas. A festa ia alegre como devem ser as festas de noivado. Em determinado momento, os noivos começaram a fazer planos para a lua de mel. Surgiram vários palpites: Bahia, Europa, Miami. Quando alguém sugeriu Mal del Pla­ta, na Argentina, Thalita disse que não servia. “Lá nada há de extraordinário, a não ser os hotéis Costa Galana e o She­raton, o Casino Central e uns leões marinhos fedorentos. Aqui é melhor”. A festa parou. Ai, ela contou tudo. No dia em que desapareceu, ela simplesmente pegou o dinheiro que tinha juntado de todos os seus salários e mais algum que tinha tirado ao longo do tempo da herança deixada pe­los pais, contratou um táxi em uma cidade vizinha, foi até ao aeroporto de outra cidade, comprou passagem para o primeiro voo internacional que sairia (seu passaporte esta­va em dia) e se viu em Buenos Aires. Lá morou durante todo o tempo em que se ausentou. Quando se entediava, ia pas­sear em Bariloche, em Santiago do Chile, em Montevidéu e em Mar del Plata. Explicou porque voltou: “Buenos Aires é bom, mas em dezembro faz um calor danado. Pior do que aqui, pois não há vento ou brisa nenhuma. O suor corre pelo corpo, a gente fica molhada, pegajosa, com as mãos úmidas e o cabelo colado na nuca. A calcinha gruda no corpo e a parte de baixo enrola e assa as virilhas”.

 

Tribuna do Norte. Natal, 11 jun. 2017.