A nossa guerra de todos os dias

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 12 nov. 2007.
O Mossoroense. Mossoró, 15 nov. 2007.
Metropolitano. Parnamirim, 16 nov. 2007.

Há quem diga que somos um povo cordial. Não somos. Pelo contrário, somos um povo violento. Isso fica claro quando estudamos a história nacional. Nos tempos coloniais os índios foram escravizados e os africanos foram trazidos para cá também como escravos. Todos foram explorados ao limite de sua utilidade como “bens de produção”. O tempo médio de vida útil do escravo negro era de apenas sete anos. A matança era realizada pela subnutrição, pelas jornadas de trabalho desmesuradamente prolongada; principalmente nos períodos de colheita de cana de açúcar, da lavra do ouro etc. Aos portugueses pobres – embora não fossem tratados da mesma maneira que índios e negros – cabiam as tarefas mais perigosas, aquelas que punham suas vidas em risco, suas mortes mais próximas. Eram eles que faziam a linha de frente dos bandeirantes, dos senhores de engenho, dos contratadores de lavras de minérios.

Todavia, essas eram violências que podemos chamar de indiretas. O que nos interessa hoje é a violência direta. E elas haviam. Matava-se nos porões das casas grandes, nos campos, nos pelourinhos, nas masmorras dos fortes, nas lutas pelo domínio da terra, nas cidades, em todos os lugares. Essa herança maldita se reproduziu no Império, na República Velha, na ditadura de Vargas, na ditadura militar e até hoje. Atualmente a matança tomou uma dimensão de guerra civil. Hoje não só os poderosos matam. Todos matam todos. Os índices de criminalidade no Brasil atingem patamares “nunca visto na história deste país” – para usar uma expressão do gosto do senhor presidente.

O Rio de Janeiro está fora de controle há muito tempo. Lá as coisas começaram com a glamourização de alguns ilícitos penais, com a convivência pacifica da alta sociedade com a cúpula do jogo do bicho, nos desfiles das escolas de samba, quase que todas elas sustentadas, controladas e dirigidas por bicheiros. Na Marques de Sapucaí, astros e estrelas globais e bicheiros desfilavam abraçados, na mesma época em que a luta pelo controle dos pontos de jogo já vinha sendo a causa de vários crimes. Os desfiles continuaram os mesmo, até quando se iniciou a ligação de alguns dirigentes do jogo com o tráfico de drogas.

Entretanto, o tráfico é rendoso de mais para ficar nas mãos de simples bicheiros. As organizações criminosas pesadas, o Comando Vermelho e o Primeiro Comando e suas ramificações, assumiram a direção de tudo e até o governo das favelas. Ai se estabeleceu a guerra carioca. As disputas entre as duas organizações e suas diversas ramificações se transformaram em guerra diária. O triste dessa história é que uma parte da policia do Rio (a parte podre, pois graças a Deus ainda há uma parte boa) se envolveu na disputa, ao lado dos traficantes.

Do Rio de Janeiro, esse quadro se espalhou pelo Brasil. Em São Paulo foi criada uma outra organização, o Primeiro Comando da Capital. Nos outros Estados, espelhando o que acontecia nos dois grandes, ou se formaram grupos locais ou grupos ligados às organizações criminosas fluminenses ou à paulista. O mais grave, porém, é que a violência se generalizou. Hoje ela faz parte não somente dos grandes atos criminosos: o tráfico de drogas, o roubo de cargas nos portos e nas estradas, por exemplo. Nos dias atuais a violência está até nos pequenos delitos: nos assaltos a motoristas, a pequenos comerciais e a pessoas comuns. Mata-se por qualquer reação e até quando não há reação.

Por aqui, já não chamam a atenção de ninguém (por ser um fato comum e repetitivo) as notícias que são publicadas nos jornais de Natal e de Mossoró sobre execução de pessoas por indivíduos desconhecidos. Parece até que ninguém liga mais para a violência, ninguém mais nota os crimes de morte que acontecem todos os dias.

O fato é que vivemos uma guerra civil não declarada. Nas ruas, se já eram comum os carros com os vidros fechados e portas travadas, agora os vemos com vidros escurecidos por mantas de plástico escuro, como uma forma de dificultar a visualização dos ocupantes pelos bandidos. Embora proibido, espalham-se o uso de armas de fogo pelos motoristas, para se defender de possíveis assaltantes. Nas casas residências, casas comerciais e condomínios espalha-se o uso de cercas elétricas, câmaras filmadoras e sensores de movimento. Quem pode, contrata segurança particular.

E o povo pobre que não tem carro, não pode comprar dispositivos de segurança e nem sonhar em contratar segurança, o que faz para fugir dos bandidos? Infelizmente somente rezar para Deus, pois das autoridades dificilmente receberá algo. Vejam o exemplo da saúde e da educação, onde o descaso é a tônica dos governantes.