A NOSSA “DOENÇA HOLANDESA”

Tomislav R. Femenick
Tribuna do Norte
. Natal, 10 abr. 2011
Gazeta do Oeste
. Mossoró, 09 abr. 2011.

Em artigo anterior procurei analisar a verdadeira arapuca em que o país se encontra, em relação a sua política cambial e, por decorrência, a corda bamba em que nos encontramos para evitar a volta da inflação e a queda de competitividade da indústria nacional, cujos produtos sofrem uma brutal concorrência das mercadorias de outros países. Isso em dois fronts: muitos produtos importados são vendidos aqui por preços inferiores aos similares nacionais, enquanto que no mercado global alguns “made in Brazil” são vendidos mais caro que seus concorrentes. Deixando de lado o tão conhecido “custo Brasil” (altos tributos, estrutura de transporte sucateada, portos deficientes e outros que tais), o artigo centrou suas análises na política cambial.

Hoje volto ao assunto, porém em busca do diagnóstico para essa situação esdrúxula: temos reservas em moedas fortes variando em torno de US$ 300 bilhões, o que foi uma das significativas proezas do governo Lula e, por causa disso, estamos vivendo um período tormentoso para as empresas exportadoras, enquanto que o Banco Central se contorce para evitar a supervalorização do Real.

Entre os economistas essa situação atualmente vivida pelo Brasil é conhecida como “doença holandesa”. Esse evento é o resultado da relação que existe entre as explorações de recursos naturais e o enfraquecimento do setor industrial; fenômeno decorrente do aumento de receita das exportações desses recursos, que provoca acúmulo de divisas externas, que fortalece além do razoável a moeda local e torna o setor manufatureiro menos competitivo que produtores externos. A analisa desse fato começou a ser feita com mais cuidado nos anos 60/70 do século passado, quando houve um grande aumento no preço do gás do Mar do Norte, produto largamente exportado pela Holanda. O resultado foi a valorização do florim (moeda holandesa na época) e a queda das exportações dos demais produtos holandeses, por absoluta falta de poder de concorrência no mercado internacional. Daí o nome de “doença holandesa”.

Voltando ao Brasil. O que provocou a formação de nossa volumosa reserva foi, basicamente, o continuado crescimento das exportações de produtos primários (destacadamente minerais, grãos e carnes), que atualmente sofrem grande demanda em outros países, principalmente na China. Há outros fatores que devem ser levados em considerações, destacando-se o grande fluxo de entrada de moedas estrangeiras para investimentos produtivos e, também, para o mercado financeiro; este último como empréstimos ou especulação.

Alguns economistas já reconhecem a existência da “doença holandesa” no Brasil, uma vez que o real está muito valorizado e há alguns focos de desindustrialização. Outros, mais puristas, não aceitam esse diagnóstico, já que o fenômeno da valorização do Real não decorre de descobertas de recursos naturais e a nossa incapacidade concorrencial têm outras origens: carência de uma política de ciência e tecnologia voltada para a realidade globalizante, de investimentos públicos e privados em áreas estratégicas e de infraestrutura despreparada para o crescimento. Para eles o que há são sintomas da doença. Pelo sim, pelo não, ou seja, se a “doença holandesa” já chegou ao Brasil ou se dela somente há sintomas, o fato concreto é que estamos com um problema cambial, monetário e de política industrial para ser resolvido.

No Rio Grande do Norte os reflexos se fazem ver na cassinocultura, na cadeia produtiva do algodão (plantio, beneficiamento e indústria têxtil), na salinicultura e na fruticultura. O nosso camarão está mais caro que o produzido no sudeste asiático; o plantio e o beneficiamento do algodão lutam para sobreviver à duras penas; a indústria de fios, tecidos e vestuário registrou queda da produção e algumas unidades já fecharam suas portas; o sal chileno é mais barato que o sal potiguar e, por último, as exportações de nossas frutas têm registrado queda no preço, no volume e, consequentemente no valor exportado.

E qual seria o remédio para essa doença? Há quem defenda uma maior intervenção do governo no controle do câmbio, como o ex-ministro da Fazenda Bresser-Pereira, para conter o que ele chamou de “populismo cambial”. Esta semana o governo Dilma já deu alguns sinais nessa direção, taxando compras realizadas no exterior e investimentos especulativos. Até agora essas medidas têm sido tímidas e paliativas, somente servem para acalmar, para abrandar e atenuar temporariamente o mal sofrido pela economia nacional, com a supervalorização da moeda nacional.

E qual o cenário futuro? No futuro próximo parece que o governo não tem interesse para baixar a cotação do Real, pois isso provocaria o desequilíbrio dos preços, ao aumentar o custo de muitos produtos importados (principalmente matérias-primas) que estão segurando a inflação. No futuro mais longo temos o pré-sal, a faixa de petróleo descoberta pela Petrobrás, que vai do Espírito Santo até Santa Catarina, que pode se tornar um presente grego. Mais exportações primárias, mais moedas fortes, mais doença holandesa (ou brasileira, se preferirem).