A MULTIPLICAÇÃO DO SABER

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 07 jul. 2008.
Metropolitano. Parnamirim, 11 jul. 2008.

O professor Ângelo Magalhães, meu colega de magistério em uma faculdade da rede privada, há alguns meses atrás comentou comigo um fato que atesta a tremenda falta de saber que impera no meio universitário. Ele pediu que seus alunos fizessem uma interpretação de um texto de autoria de uma das mais renomadas antropólogas brasileiras, Ruth Correia Leite Cardoso. Segundo ele, quase nenhum aluno conhecia quem era a autora. Somente uma aluna lhe indagou se ela não seria a mulher do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Quando o professor Ângelo respondeu que sim, foi surpresa geral na classe, pois ela só era conhecida como primeira-dama e nunca como uma intelectual de reputação internacional. Lamentável.

No início dos anos oitenta. quando eu estava fazendo pesquisas para a elaboração da minha dissertação de mestrado, na PUC de São Paulo, o meu orientador, na parte de economia, era o professor Chico de Oliveira, que me atendia na sede do Cebrap-Centro Brasileiro de Análise e Projeto, entidade fundada por FHC e onde sua esposa era uma das mais respeitadas pesquisadoras. Foi lá que eu a conheci. Cruzamos algumas vezes pelos corredores do Cebrap, com simples troca de cumprimentos, pois até então não tínhamos sido apresentados. Quando Chico de Oliveira nos apresentou, ela se mostrou interessada nas minhas pesquisas e deu-me várias indicações importantes. Era uma pessoa séria, porém sem mau humor; sem falsa humildade, mas sem ser esnobe.

Em outra oportunidade, quando minha mulher me acompanhou em uma visita ao Cebrap, eu a apresente a D. Ruth. A conversa informal entre elas evoluiu. D. Ruth foi a primeira a incentivar a professora Goreth, minha mulher, a fazer estudos pós-graduados em psicopedagogia. Seu grande argumento foi que no Brasil havia uma tremenda necessidade de se multiplicar o saber, e isso somente os professores poderiam fazer.

O tempo passou e perdemos o contato; coisa das cidades grandes e da vida moderna. Em maio de 1993, eu estava organizando um seminário nacional, que seria realizado na capital paulista. O tema era “A mulher executiva – uma visão atual”. Convidei a antropóloga Ruth Cardoso para fazer a abertura. Estava tudo certo, quando ela foi convidada para fazer uma palestra em uma Universidade norte-americana, no período do seminário. Ela então me indicou uma pessoa que poderia substituí-la, “ou até falar melhor sobre o assunto”, segundo disse-me. Indicou-me o autor do livro “A mulher brasileira: direitos políticos e civis”, o professor João Batista Cascudo Rodrigues. A coincidência, disse-lhe eu, é que João Batista é meu primo e já estava escalado para falar. Foi ele quem abriu o seminário.

Entretanto não devemos pensar em D. Ruth somente como uma pesquisadora, em pessoa cujo trabalho é limitado pelas paredes do seu gabinete. Ela foi muito maior que isso. Embora doutora em antropologia e professora da USP; da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais, da Unesco; da Universidade do Chile; da Maison des Sciences de L’Homme, de Paris; da Universidade de Berkeley, da Califórnia, e da Universidade de Columbia, de Nova Iorque, ela também foi uma mulher de ação, de atuação no dia-a-dia.

Nos brasileiros estávamos acostumados com primeiras-damas diferente: vimos o deslumbre da Maria Teresa Goulart; não vimos as mulheres dos primeiros presidentes do governo militar; assistimos pela televisão Dulce Figueiredo, a mulher do último, abanar com um leque Joãozinho Trinta, que estava deitado em um sofá, depois de um desfile de escola de samba; quase não tivemos notícias de Marly Sarney; tomamos conhecimento dos desmandos da ex-mulher de Collor e assistimos, também pela televisão, o presidente Itamar Franco abraçado com uma mulher sem calçinha, também em um desfile de escolas de samba. D. Ruth não era nada disso – foi uma primeira-dama diferente. Fez questão de abandonar as colunas sociais dos jornais, para se dedicar às atividades sociais de governo. Criou a Comunidade Solidária e foi a “mãe” real do programa Bolsa Família, que nada mais é do que a junção de programas por ela idealizados: Bolsa Escola, Vale-Gás e outros que foram criados no governo Fernando Henrique.

O Brasil perdeu uma grande dama.