A memória, a história e o jornalismo

vinheta172Jornalista e historiador

Há uma corrente de pensadores, que inclui alguns acadêmicos com bom pedigree, que segue uma linha de raciocínio que confunde “memória” com “história”. Na qualidade de integrante dessa espécie muito especial conhecida como “homo academicum”, sinto-me a vontade para divergir, embora reconheça que o que separa esses dois conceitos é algo tão fino como é fino o gume de uma navalha afiada.

Como historiador vejo a memória como algo suspeito, pois o memorialista é quase sempre uma testemunha de se mesmo; até quando é testemunha de algo de que não participa, é somente plateia de um acontecimento que lhe pode parecer simpático ou avesso. É por isso que não há verdade absoluta, uma vez que todas as verdades são relativas. Relativas a um determinado parâmetro, no caso o juízo de valor do memorialista.

Aqui surge a pergunta: e o jornalista, ele é um memorialista? Claro que é, mas também é um mensageiro da memória das suas fontes. Assim entendido, ele corre o risco de divulgar versões incorretas de acontecimentos e fatos, principalmente se suas matérias são baseadas nos press releases que hoje em dia invadem as redações dos jornais, revistas e dos setores noticiosos das rádios e televisões. Não custa destacar: os entrevistados, as fontes e os redatores dos informes dirigidos às redações são pessoas que têm por finalidade divulgar suas versões de fatos e atos; pessoas e documentos nem sempre comprometidas com a verdade. Pessoas mentem e documento podem ser falseados. Além do mais a retórica pode esconder a conformidade com a realidade, criando um ambiente propicio à subjetividade cognitiva do intelecto humano, distanciando os fatos e eventos da realidade objetiva. Aqui está o busílis, o cerne da questão.

Para evitar cair nessa cilada, a tarefa que cabe ao jornalista é verificar as informações que recebe, testando sua veracidade. Então, é preciso decifrar as mensagens que recebe e mergulhar em busca da verdade mais profunda. Isso só se consegue após examinar, investigar, pesquisar e esquadrinhar minuciosamente o que pode estar por trás das mensagens, dados e interpretações que recebe de terceiros. A dúvida é – e sempre será – a ferramenta basilar da profissão do comunicador.

Só com esse constante distanciamento crítico as memórias se transformam em história, matérias a serem divulgadas aos seus leitores ouvintes ou telespectadores. Com essa ação, os jornalistas contribuem para a construção, reconstrução e divulgação da verdade.

Mas existe um outro aspecto relevante no exercício da profissão: a aceitação de posições adversas à posição do jornalista, pois o alicerce da imprensa é a multiplicidade de posições ideológicas, a diversidade de ideias e conceitos. O contrário é nada mais nada menos que censura; tudo o que não se deve fazer.

Durante a ditadura militar, como jornalista dos jornais Diário de Natal, Diário de Pernambuco e O Povo (este de Fortaleza-CE) e como colaborador do Correio Braziliense, do Jornal do Brasil e da Folha de São Paulo, tive a oportunidade que questionar e rebater a veracidade de entrevistados e informações recebidas, sempre em busca da verdade dos fatos, mas evitando a autocensura e a censuro dos outros, mesmo que os censores recebessem ordem das autoridades do momento.

Por causa das minhas matérias publicadas na imprensa regional e nacional, fui chamado várias vezes ao comando da 4º Exército, no Recife, para “prestar esclarecimentos”. Pelo mesmo motivo, perdi o registro de jornalista, na Delegacia Regional do Trabalho de Natal. Coagido no desempenho de minhas funções do Banco do Nordeste, onde era funcionário concursado e com estabilidade (mais de dez anos e não optante pelo FGTS), foi levado a pedir demissão.

Ainda hoje só escrevo o que acredito ser verdade; nada que tenha dúvidas não resolvidas. Porém respeito a divergência de opiniões, conceitos e ideias. Não, não é nada fácil.

Tribuna do Norte. Natal, 04 nov. 2017