A MATRIZ GLOBALIZANTE E A CRISE

Tomislav R. Femenick
Tribuna do Norte. Natal, 28 set. 2008.
Gazeta do Oeste. Mossoró, 27 set. 2008

Pode até ser paradoxal, mais o conceito da matriz globalizante vem se espalhado por todos os campos ao mesmo tempo em que todos os países estão lutando para afirmar suas identidades nacionais, cultura, cosmovisão etc. Mesmo cada um de nós, como pessoas, queremos cada vez mais respeito às nossas individualidades. Esse aparente contra-senso, essa idéia de mundo sem fronteiras e ao mesmo tempo particular, é fruto da própria essência humana. E o desenvolvimento da informática e das telecomunicações tem sido a alavanca mestre para esse processo de integração da pluralidade. A queda das barreiras alfandegárias, a formação de blocos econômicos, a velocidade nas comunicações, as mudanças tecnológicas e o fluxo de capitais internacionais são as principais forças que alteraram e moldaram essa nova visão mundial.

O Brasil se iniciou na atual fase de globalização somente na última década do século XX. Até o governo de José Sarney (e antes, nos governos militares), o país estava como que segregado economicamente do resto do mundo. Não obstante o crescimento das exportações, nossas relações com os outros países eram reduzidas, pequenas e limitadas. As importações eram restritas a poucos itens e chegamos ao ponto máximo da insensatez quando foram proibidas as entradas de produtos de informática (hardware e software), para que os computadores, seus componentes e programas fossem desenvolvidos internamente. Estávamos desesperadamente tentando reinventar a roda. Somente no governo Collor o Brasil aderiu à globalização, porém de maneira desordenada, sem planificação e sem se preocupar com os reflexos desestabilizadores, que uma abertura econômica abrupta teria sobre o sistema produtivo nacional. Foi nos governos de Fernando Henrique e de Lula que o país adotou a globalização, como filosofia econômica séria – com todos os benefícios e riscos: livre entrada e saída de capitais, flutuação da moeda, livre importação de mercadorias etc.

No mundo e aqui, a globalização impôs um momento de transformação equivalente ao ocorrido na Revolução Industrial, iniciada no século XVIII, com a diferença de que agora a velocidade das mudanças é muito maior. Embora não tão perceptível, deve-se destacar que o que ocorre no panorama mundial também ocorre no seio das empresas, delas exigido grandes transformações organizacionais; fato que se transformou em um enorme desafio para muitas empresas que são incapazes de reinventar seus setores e refazer suas estratégias, para enfrentar a nova situação. Nessas empresas os problemas de transformação organizacional são proporcionais às suas crises, pois perdem liderança na tarefa de transformação do setor, vez que estão competindo não só com seus concorrentes internos, mas com organizações do mundo todo.

A acomodação e o despreparo de alguns empresários nacionais não lhes permitiram perceber que a dimensão das mudanças não era determinada pelas suas empresas e sim pelo mercado (o conjunto da concorrência), que impunha o andamento dos avanços técnicos, econômicos, políticos, social etc. A incapacidade de “reinventar” seus negócios e a ausência de uma visão atualizada não deixaram a esses “empreendedores” outra alternativa, exceto se transformarem em imitações dos lideres do setor. Para eles, a modernização de suas organizações é uma atitude de reação às transformações da concorrência internacional e não o resultado de uma planificação ou uma atitude ativa em busca da liderança. Muitas empresas nacionais se têm mostrado capazes de seguir a onda da globalização. Elas vêem que uma administração bem sucedida requer transformações organizacionais que vão além de enxugar e dinamizar a administração dos negócios; deve-se buscar a liderança do setor.

Como no final da década passada, pode ser que agora esteja chegando a outra face da globalização. Se por um lado a recente fase de alto consumo internacional de commodities (nossos principais itens de exportação) possa estar terminando, por outro a redução do preço de produtos importados (matérias-primas ou mesmo manufaturados) poderá ser um fato com que os empresários brasileiros tenham de conviver. Um outro fator resultando da crise financeira – que começou nos Estados Unidos, mas que já se espalha pelo mundo todo – será, certamente, a redução da massa de dinheiro disponível para o crédito de produção e de consumo. A quebradeira dos bancos americanos enfraqueceu, por tabela, os grandes bancos europeus e asiáticos que, junto com os primeiros, poderão retirar suas aplicações dos países em desenvolvimento como o Brasil. Em apenas uma semana, a movimentaçao do chamado câmbio financeiro registrou uma saída de US$ 2,680 bilhões, já apresentando saldo negativo.

Tudo isso poderá acontecer se o Congresso norte-americano não aprovar, em curtíssimo prazo, as medidas não convencionais propostas por Bush; e senadores e deputados não estão propícios a dar uma carta totalmente branca ao governo, em um ano de disputa eleitoral por lá.