A invulgar visão de Nestor

vinheta175Jornalista e escritor

O Rio Grande do Norte tem filhos ilustres que são praticamente desconhecidos por seus conterrâneos. Tomemos como exemplos o caso de João Almino, escritor mossoroense eleito para a Academia Brasileira de Letras, até então um ilustre desconhecido para a maioria de nós potiguares. Outro caso típico era o natalense Nestor dos Santos Lima, ex-combatente da II Guerra Mundial, embaixador, escritor e membro da Academia Norte-Riograndense de Letras, recentemente falecido. Seus livros mais conhecidos são: “La tercera América”, “La imagen del Brasil en las cartas de Bolívar”, “ De uma varanda sobre o Nilo: tempos de Naser” e “Samurais e Jecatatus”.

            Por ocasião da terceira reimpressão do meu livro “Os escravos: da escravidão antiga à escravidão moderna”, em 2005 (portanto há doze anos), por sugestão do meu amigo Itamar de Souza, submeti o livro ao crivo de Nestor dos Santos Lima, uma pessoa que até então eu não conhecia. Para complicar mais ainda esse arranjo, o cidadão andava adoentado, residia no Rio de Janeiro e eu morava aqui em Natal. Falamos várias vezes por telefone, principalmente eu lhe informando sobre notícias do Rio Grande do Norte e de sua Natal. Dizíamos que ficamos “amigos à longa distância”.

No entanto, eu não esperava que fosse atendido quanto ao exame do livro. Para minha surpresa, alguns dias depois recebi uma carta datilografada do embaixador (sim, em “máquina de escrever”, como se dizia antigamente), comentando o livro e dando sugestões para melhora-lo do ponto de vista político-analítico.

            Pela sua importância como instrumento crítico e como revelação do seu pensamento altamente culto, reproduzo aqui alguns trechos da carta que recebi de pesquisador Nestor dos Santos Lima: Ipanema, 6.7.05. Prezado professor Tomislav. Ufa! Acabei (de ler) o seu livro, com grande proveito para a consolidação das minhas informações sobres os demais países latino-americanos com contingentes de população negra, que conheci ‘de visu’ durante meus últimos anos de serviço latino americano no Caribe. (…) Seu livro, além do respeitável número de páginas cheias de informação, ainda traz uma rica bibliografia detalhada, em apoie ao texto. E um oceano de informação sobre o tema ‘da escravidão antiga à escravidão moderna’. Seria melhor se, à luz do declínio do prolongado domínio dos marxistas dos últimos anos (Marx et caterva), ficasse menos enfático o apoio dos vivos aos mortos, ademais de que o ‘Capital’ envelheceu no seu enfoque, embora permaneça válido no seu diagnostico – mas não tanto na validade dos remédios prescritos. Mas você fez o que pôde, para não se deixar enredar nos dogmas marxistas, hoje em demolição. Teria sido boa oportunidade para desvencilhar-se do embrulho entre culturas e civilizações, o qual até Cascudo não deslindou. Mas fica para outras edições, que o seu livro certamente terá no futuro. Abraços do Nestor”.

            O embaixador tinha razão. Citemos somente um exemplo de contorção histórica, realizado por esquerdistas travestidos de pesquisadores, que fazem uso de uma argumentação para lá de suspeita. Está havendo um movimento (e uma reação) para denominar uma rua da capital alemã em homenagem à Ana Zinga, uma rainha africana do século XVII que, segundo os marxistas, teria lutado contra o colonialismo português em Angola. Em uma espécie de relativismo cultural, eles escondem o fato de que Zinga era também traficante de escravos. Mais do que isso: ela monopolizava o comércio escravista e vendia seus irmãos a portugueses e holandeses, dependendo de quem pagasse mais ou de quem estivesse controlando a colônia. O caso foi trazido a público por um dos maiores jornais da Alemanha, o “Berliner Zeitung”, em reportagem da jornalista Maritta Tkalec, que cita justamente o meu livro “Os Escravos”, o mesmo analisado pelo meu amigo embaixador. Bem que ele me alertou sobre os embrulhos marxistas.

             Nestor dos Santos Lima entrou para o serviço diplomático em 1947, tendo servido na antiga Iugoslávia, México, Guatemala, Egito, Dinamarca, Japão, Venezuela, Suriname e Republica Dominicana. Segundo Gilberto Freire, Nestor Lima em suas atividades diplomatas unia os “setores políticos e econômicos, à uma preocupação pelos assuntos culturais em um amplo sentido antropológico ou sociológico de cultura”.

 

Tribuna do Norte. Natal, 06 jul. 2017