A intelectual esclarecida

Tomislav R. Femenick
Gazeta do Oeste. Mossoró, 29 abr. 2007.
O Jornal de Hoje. Natal, 23 abr. 2007.
Metropolitano. Parnamirim, 27 abr. 2007.

Rica, jovem, bonita e bem relacionada nos meios acadêmicos e intelectuais da pauliceia, a moça era uma grande esperança entre os seus amigos, que desejavam vê-la um dia ser uma pesquisadora ou escritora famosa. Bem relacionada, muito comunicativa e conceituada em seu meio como uma “pensadora consistente” (até hoje não sei o que isso quer dizer realmente), ela foi uma das primeiras mulheres nomeadas para compor a equipe de Luiza Erundina, tão logo essa tomou posse no cargo de prefeita da cidade de São Paulo. Mesmo que eu não tenha dito, agora vocês já podem sabem uma das outras qualidades da jovem: ela era uma ardente socialista, “por idealismo e convicção”, como dizia.

Já tínhamos nos encontrado em várias ocasiões: nos corredores da Pontifícia Universidade Católica (na época pontificada por pensadores comunistas e socialistas, de Marx a Paul Singer), em palestras de Marilena Chauí, em plateias de teatros e até em barzinhos frequentados pelos “intelectuais esclarecidos”. Entretanto, nossas conversas não passavam de “oi”, “olá”, “como vai?”.

Não sei em que ano, mas foi na segunda parte dos anos noventa, me encontrei com a rica, jovem, bonita, bem relacionada e socialista senhorita em Havana, no hall de um hotel da capital da ilha de Cuba. Eu lá estava querendo vencer a burocracia socialista, no intuito de fazer pesquisas sobre a escravidão negra. Ela, porque queria assistir a um daqueles quilométricos discursos do líder Fidel Castro, um dos seus gurus ideológicos. Além do mais, queria ver de perto o “grande guia do povo cubano”, o “homem que tinha vencido o imperialismo americano”, que fizera dos “cubanos realmente um povo independente” etc. e tal. Era um final de tarde. Eu estava me preparando para mais uma noite de trabalho com os parcos dados que as autoridades cubanas tinham deixado que eu anotasse. Ela estava ansiosa para ir pessoalmente ouvir o “comandante” falar. Estava curiosa para verificar como o grande líder construía a sua oratória. Queria saber por que todos ficavam tão impressionados com os seus discursos.

Encontramos nos novamente no dia seguinte, no salão do hotel onde era servido o café da manhã. Ela estava radiante. Comentou que o efeito da fala de Fidel sobre o povo era algo de impressionante, comovente até. Em um momento todos o ouviam em silencio, em outro, todos aplaudiam em conjunto, como se as pessoas formassem uma imensa orquestra que tinha o orador como maestro. Ela dizia que as ideias de Fidel Castro tinham um efeito magnetizador que empolgavam por sua clareza, por sua objetividade e até por sua simplicidade. Sua última afirmativa foi uma pérola: “Ouvindo o comandante Fidel falar, se compreende que não há outra maneira qualquer de se pensar, que possa ser considera correta. Eu gravei tudo para levar para o Brasil. Foram quatro fitas K7. Vou passar o dia e a noite de hoje transcrevendo as ideias centrais do discurso, para escrever o artigo sobre ele”.

Então lhe pedi um favor. Como eu também estava interessado na maneira como o governante cubano estruturava seu pensamento revolucionário e como ele formulava esse pensamento, pedi que ela fizesse uma lista das ideias inovadoras de Fidel, ditas no dia anterior, e que as submetesse a uma revisão epistemológica. Queria saber o resultado, e ninguém melhor que ela para fazer tal coisa.

A perdi de vista em Cuba e no Brasil, quando para cá voltei. Só a encontrei novamente alguns anos depois, em uma festa de casamento. Trocarmos algumas palavras sobre assuntos que são de praxe em reuniões do gênero, mas não me contive e perguntei: “E ai? Fez aquela lista das ideias de Fidel e analisou a consistência de suas bases?”. “Fiz – respondeu-me – e foi assustador para mim. Não havia nada de novo, quer no conteúdo, quer na forma de dizer os pensamentos. Tudo o que Fidel disse naquele dia, já tinha dito em oportunidades anteriores, de forma igual ou parecida, e suas ideias se baseiam somente em palavras, poucas em fatos.

Lembrei-me da rica, jovem, bonita, bem relacionada e ex-socialista paulista, ao ler trechos dos discursos de Hugo Chavéz, Evo Morales e Lula, proferidos na 1ª Cúpula Energética Sul-Americana, acontecida semana passada na Venezuela. Todos já tinham dito as mesmas coisas em oportunidades anteriores, de forma igual ou parecida, e suas ideias se baseiam somente em palavras, poucas em fatos.

Resumo da opera: somente palavras não fazem acontecer nada de concreto e correto. São precisos ação e fatos honestos.

Selecionei duas notícias sobre Mossoró, que publiquei em jornais do Nordeste, no dia 22 de abril, dos anos de 1967 e 1970.

ESCOLA DE AGRICULTURA – “Decreto do Ministro de Educação criou a Escola Superior de Agricultura de Mossoró. Vários ‘considerandos’ justificaram a criação dessa unidade de nível superior, destacando-se a realização de metas da nova política de desenvolvimento rural do governo federal, a importância da formação de técnicos de nível superior para atuar no meio rural, a necessidade de incentivos para a região de Mossoró intensificar sua produção agrícolas e pecuárias e, ainda, formar especialistas para criar na região os meios para desenvolver uma forte industrialização de produtos de origem agropecuária.

O prefeito Raimundo Soares de Souza nomeou uma comissão para organizar a faculdade e determinou que as despesas com a sua instalação corressem por conta do orçamento da Fundação Para o Desenvolvimento da Ciência e Tecnologia. Com a criação da Escola Superior de Agricultura de Mossoró esta cidade contará com quatro unidades de ensino universitário”. Diário de Natal. Natal, 22 abr. 1967.

MORTES EM MOSSORÓ – “Uma forte gripe virose vem grassando na zona rural e na sede deste Município. O surto epidêmico já causou a morte de crianças e adultos. A doença, que se apresenta como uma gripe e recebeu a denominação de “Saldanha”, tem como sintomas dores de cabeça, febre alta, dores musculares, desidratação e forte expectoração. A Segunda Delegacia Regional de Saúde do Estado, com sede em Mossoró, já instalou vários postos de vacinação. A vacina não tem efeitos colaterais e não apresenta transtornos ou reações nas pessoas vacinadas. Dezenas de postos estão funcionando na cidade, espalhados pelos diversos bairros. Não obstante, alguns já estão parados por falta de vacinas, tão grande foi o número de pessoas a procurá-las.

Apesar das providencias tomadas, continua assustador o índice de mortalidade infantil provocada pela virose. Inúmeras crianças têm morrido vítimas essa doença, muitas delas sem nem receber os primeiros socorros médicos. A desidratação, ao lado de outras doenças que são comuns em crianças subnutridas ou desassistidas de educação sanitária, é responsável de 50% das mortes de crianças em Mossoró e é provocada pelas condições climáticas que a cidade apresenta”. O Povo. Fortaleza, 22 abr. 1970.