A INFRAESTRUTURA, AS EXPORTAÇÕES E AS ÁGUAS

Tomislav R. Femenick
Tribuna do Norte
. Natal, 23 jan. 2011.

Todas as regiões colonizadas tiveram sua economia organizada para favorecer a potência colonizadora. Em outras palavras, a riqueza produzida nessas regiões era mandada para a matriz. No Brasil também foi assim. Primeiro nós mandamos pau-brasil, depois açúcar, fumo, ouro, diamantes e outros produtos primários para Portugal, que os reexportava para outros países e ficava com a parte maior dos ganhos. Essa situação perdurou até a vinda da família real, em 1808, quando foi editada a carta régia que decretava a abertura dos nossos portos às nações amigas, quebrando uma das amarras do pacto colonial.

Com a independência a situação não se alterou, continuamos exportando esses mesmos produtos e mais café, algodão etc., só que desde então os benefícios das exportações passaram a ficar em nosso país. E que benefícios são esses? Se o valor da venda de qualquer produto (inclusive os exportados) for decomposto, o que encontraremos no final da cadeia produtiva são tão somente salários da mão de obra envolvida, lucros dos empreendedores, juros dos financiamentos necessários para a sua elaboração e remuneração da tecnologia envolvida na sua produção, além, é claro, dos tributos.

Quando o produto é vendido internamente, a diferença básica é que há apenas a transferência de recursos de uma área para outra. Por exemplo: se um agricultor brasileiro compra um trator nacional ele transfere a sua renda, produzida na agricultura, para a indústria; ambas nacionais – sai renda da agricultura brasileira e entra renda no setor industrial brasileiro. Quando o mesmo trator é vendido para o exterior, vem para o país renda produzida no país importador, gerando aqui mais empregos, salários, lucros, juros e tributos. Esses últimos se transformam em escolas, hospitais, estradas etc.

Entretanto, no Brasil exportar não é fácil. Para início de conversa há o que se convencionou chamar de “custo Brasil”; um conjunto de dificuldades estruturais, burocráticas, ideológicas e econômicas que encarecem as atividades produtivas no país, dificultando o crescimento econômico e as exportações e que abrange, entre outros, fenômenos tais como: a alta incidência de impostos, os juros altos, a burocracia excessiva, as dificuldades criadas por órgãos ambientais, o déficit público elevado, a corrupção ativa e passiva e os custos trabalhistas que vão além dos salários (FGTS, PIS, INSS, Funrural).

Nos últimos anos outro fato assombra os exportadores: o real, a nossa moeda, está supervalorizado. O que é bom para os importadores é uma dor de cabeça a mais para os exportadores, que vêm seus produtos ficarem mais caros no comércio internacional, perdendo competitividade. Vamos entender, usando o camarão como exemplo. Quando o dólar valia R$ 3,33, para cada quilo vendido no exterior o produtor brasileiro recebia R$ 11,00. Agora, com o dólar orbitando em torno de R$ 1,67, pelo mesmo quilo vendido lá fora o exportador potiguar recebe somente R$ 5,51. Por essas e outras é que 12 mil trabalhadores já foram demitidos pelos produtores de camarão, as exportações caíram e o faturamento também.

A boa notícia é que no ano passado as exportações do Rio Grande do Norte cresceram 10,3%, em relação com o ano anterior. A notícia ruim é que as exportações brasileiras de cresceram em níveis bem maiores: as exportações nacionais 32,0%, as do Nordeste (como um todo) 36,6% – destaque-se que 2008 e 2009 foram os anos do agravamento da crise internacional e 2010 foi o ano do início da recuperação. O valor das exportações do RN somaram US$ 284 milhões. A castanha de caju liderou, com vendas de US$ 45,9 milhões; seguida pelo melão, com US$ 45,7 milhões; açúcar com US$ 21 milhões; bananas, com US$ 17 milhões; e sal marinho, com a venda de US$ 14 milhões para o exterior.

Quais as causas desse crescimento medíocre? As mesmas de sempre: muitos produtores rurais e salineiros até hoje esperam pela “ajuda” prometida pelo governo federal para compensar os efeitos das enchentes de 2008, 2009 e 2010; faltam estradas ou as existentes não têm qualidade e/ou conservação necessárias, o que danifica as frutas; o porto de Natal não atende a demanda dos exportadores e nem está conectado a rotas que atendam aos importadores; a excessiva carga tributária e mais um rosário de fatos que entravam as exportações de produtos “made in Rio Grande do Norte”. Ajunta-se a isso todo outro elemento: somos exportadores de produtos primários, com baixo índice de valor agregado, isso é, que geram poucos salários e pouco lucro.

O pior é que as águas de março e abril vêm por ai. E com elas, novas ameaças de enchentes, pois os leitos dos rios Mossoró e Assu estão assoreados.