A INCOMPETÊNCIA DAS AUTORIDADES COMPETENTES

Tomislav R. Femenick
Tribuna do Norte. Natal, 04 abr. 2010
Gazeta do Oeste. Mossoró, 09 abr. 2010.

Nos últimos dias o Aeroporto de São Gonçalo do Amarante esteve em destaque nos noticiários dos jornais, rádios e TV’s locais. O que é impressionante é a futilidade de tantas reuniões, de tantas promessas que não levam a coisa nenhuma, a não ser à constatação de que as ditas autoridades competentes são incompetentes para entender a importância e o alcance desse projeto, que poderia alavancar a logística de transporte do país, fazendo do nosso Estado um ponto estratégico, no que diz respeito à transferência internacional de pessoas e cargas. Muito mais incompetentes são para concretizar essa importante obra estruturante.

O que se pensa sobre o novo aeroporto é primário. Alguns o veem apenas como um ponto de apoio ao Aeroporto Augusto Severo, que estaria saturado e que não comportaria a tendência natural de aumento do fluxo de passageiros. Outros, querendo ser mais atualizados e dizendo-se por dentro dos acontecimentos, gritam por sua conclusão para dar suporte ao “grande número de turistas” que viriam a Natal em função da Copa de 2014 (tem gente que acredita mesmo nisso?). Uns e outros mostram a pequenez de sua capacidade de raciocínio em termos de visão econômica. Enquanto isso, o Rio Grande do Norte está perdendo mais uma oportunidade de se transformar em um centro de formação e multiplicação de riqueza; riqueza no sentido de geração de novas empresas e novos empregos e, consequentemente, de mais salários, tributos, lucros etc.

Recentemente orientei dois grupos de universitários (das faculdades Uniãoamericana e Facen), que fizeram estudos sobre o que deveria ser o Aeroporto de São Gonçalo. Fui surpreendido pela visão de futuro desses jovens. Eles ampliaram consideravelmente aquilo que se conhece como sendo o projeto do governo; ao qual não lhes deram acesso, ressalte-se. Transformaram um simples ponto de chegadas e partidas de aviões (projeto atual) em um complexo aeroportuário intermodal, com ramificações para transporte de cargas, que daqui partem ou que aqui chegam, inclusive por outras vias; rodoviária, ferroviária e mesmo marítima. Explicando melhor: o Aeroporto de São Gonçalo deveria possui um terminal rodoviário, interligando-o a outros pontos do Nordeste, e outro ferroviário, fazendo o mesmo com outros centros da região e, também, com o porto de Natal.

Isso tudo dentro do conceito de que o novo aeroporto deve ser concebido como um ponto estratégico para conexão de linhas aéreas da Europa, Ásia, África e mesmo da América do Norte e Central, com a América Latina. São Gonçalo (estrategicamente localizado geograficamente) seria o ponto de convergência de grande numero de passageiros e cargas, que chegassem ou partisse para esses destinos em aeronaves de grande porte. De lá, os passageiros e as cargas que chegasses seriam remanejados para aviões menores e levados os seus destinos finais no Brasil e em outros países latino-americanos. As cargas teriam a opção de usar caminhões ou trem, quando viesses para o Nordeste e, ainda, o percurso trem-navio, se seu ponto final fosse outro local do Brasil. Da mesma forma, passageiros e cargas nacionais e da América do Sul que fossem embarcar em linhas internacionais, para lá seriam levados por esses mesmo caminhos e meios de transporte.

Para suportar esse tráfico de grandes proporções, o Complexo Aeroportuário teriam que contar com outros elementos que lhe dessem suporte. Os primeiros deles seriam um Trade Center e um hotel, esse para pernoite e descanso dos passageiros em trânsito, cujas conexões fossem prolongada. Um aeroporto dessa grandeza exigiria instalações para manutenção e restauração de aeronaves, o que traria novos níveis de tecnologia para o Estado.

Aeroporto de São Gonçalo do Amarante não deveria ser apenas mais um campo de pouso, na paisagem potiguar. Tem-se que fazer o que o mundo tem feito: realocar linhas, desafogar sistemas saturados e, principalmente, criar pontos de transbordo, que servem de locais de convergência de vôos comerciais, onde os passageiros e as cargas mudam de aeronaves ou, ainda, de meio de transporte. Os aeroportos de Kansai, em Osaka (Japão), e o de Chek Lap Kok, em Hong Kong (China), são exemplos desse tipo de mega-aeroportos – o primeiro foi construído entre 1988 e 1994; o segundo entre 1994 e 1998. Os aeroportos de Charles-de-Gaulle, em Roissy, localizado a 25 km da capital francesa, e de Heathrow, de Londres, também estão nessa categoria.

O receio é que aconteça com o Aeroporto de São Gonçalo o que aconteceu com a Refinaria da Petrobras, os ramais da ferrovia Transnordestina e a transposição das águas do Rio São Francisco: que tudo fique no papel e em conversa fiada. O Ceará e Pernambuco já estão elaborando projetos para os seus mega-aeroportos.