A ESQUERDA PATRULHEIRA

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 12 abr. 2010.
O Mossoroense. Mossoró, 20 abr. 2010.

Há duas semanas publiquei aqui nesse espaço, e em alguns outros jornais, um corriqueiro artigo dizendo o porquê de não mais acreditava no que era dito, apregoando e divulgado pelo PT, o partido do senhor presidente da República. Depois de citar uma serie de fatos, disse que o culminante foi Lula ter dito que a “justiça” cubana merecia respeito quando prende os opositores da ditadura castrista e, ainda, ter colocado na mesma categoria os presos políticos de Cuba e os assassinos, estupradores, ladroes e sequestradores presos em São Paulo. Usei relatos de acontecimentos de domínio público, registrados nos noticiários da época em que aconteceram. Por conta “dessas despretensiosas linhas” recebi uma série de e-mails (os meus artigos também são reproduzidos em vários sites e blogs daqui do Estado e de outras regiões do país); uns concordando comigo – a minoria, diga-se de passagem – e outros, a grande maioria, discordando ou me espinafrando. Isso não me importa, pois minhas convicções não dependem de ibope. O que chamou minha atenção é que grande número das mensagens virulentas tiveram origem em outros Estados e, predominantemente, de Brasília, a Capital Federal. Estranho, não?

Essa circunstância fez-me ler alguns delas. Aquelas assinadas por pessoas que se diziam do PT procuravam me corrigir, algumas vezes davam-se alguns qualificativos que nada mais são do que chavões com que eles tratam os adversários: peessedebista enrustido, burguês, defensor do capitalismo etc. Não sou do PSDB, porque não tenho partido; se sou burguês é no entendimento medieval da palavra (indivíduo que mora em burgo, cidade) e, de fato, defendo o capitalismo porque ainda não aparecer regime melhor que ele, apesar de todos os seus defeitos; inclusive a crise de 2008.

O que me chamou a atenção foram os e-mails dos que não se identificaram ou se assinaram dizendo ser membros do PCdoB, PSOL, PSTU e um tal PSOLdoB, do qual nunca tinha ouvido falar. O recado dessa turma nada mais demonstra que sua índole ditatorial, não democrática. São pessoas que usam a democracia e os direitos humanos simplesmente como meio de chagar ao poder e com o intuito de acabar com eles: direitos humanos e democracia. Não aceitam divergências, críticas, ideias e conceitos contrários à cartinha dos seus respectivos partidos. São pessoas autoritárias e oportunistas; querem chagar ao poder para impor o que o partido manda. É claro que não generalizo. Nem todo comunista, eleitor do PSOL ou do PSTU são sectários e são candidatos a aproveitadores, se um dia chegarem lá; há os que realmente acreditam em suas idéias, por mais ultrapassadas, difusas e imprecisas que elas sejam.

Mas…, voltemos aos e-mails dessa gente. Afora os que simplesmente me xingavam, uns diziam que os presos políticos de Cuba são, sim, bandidos comuns, “a soldo do capital americano”, e que, por não entender isso, eu seria uma “besta quadrada”, agente do imperialismo (depois do fim da guerra fria há coisa mais ultrapassada que isso?) ou, no mínimo, inocente útil. Outros, perguntavam quanto eu estaria ganhando para fazer campanha contra Dilma Rousseff, a candidata do PT, pessoa que nem se quer foi citada no artigo. Há, ainda, aqueles que procuraram fazer proselitismo político, inundando minha caixa postal de artigos que defendem o esquerdismo; muitos deles das revistas Carta Capital e Caros Amigos, como se fossem fontes imparciais e confiáveis.

O que é estranho é que nenhum dos remetentes refuta minhas afirmações, fala de liberdade de expressão, do respeito às ideias contrarias. Todos ficam no terreno vulgar da discordância, nenhum se arrisca no campo dos conceitos ideológicos. A diferença desse pessoal com pessoas como eu e que nós pensamos por nós mesmo, enquanto eles pensam por interesses ou dogmas. E há mais: enquanto alguns querem cercear o direito de se ter opiniões contrárias; nós os que acreditamos verdadeiramente na democracia podemos até discordar (e eu discordo) dessa pobre patrulha esquerdista, porém verdadeiramente defendemos o seu direito de exercitar a liberdade de ter opinião; mesmo que seja velhaca.