A Era da Globalização

Tomislav R. Femenick 
Revista Unibero. São Paulo, Ano IV, nº 08, ago. 1998 


1. UM MUNDO SEM FRONTEIRAS

No início do século havia dois movimentos antagônicos, que se posicionavam em campos contrários em quase todos os aspectos, a igreja católica e os comunistas. Tinham somente uma coisa em comum: enquanto os comunistas propagavam a internacionalização do seu movimento, segundo a palavra de ordem do manifesto de Marx e Engels, “trabalhadores de todos os países, uni-vos”; a igreja não respeitava fronteiras, ela era como sua própria doutrina e nome já diziam, católica, universal.

No decorrer do século, partidos comunistas assumiram o governo de vários países europeus, asiáticos, africanos e até americanos, porém Lênin, líder da revolução russa de 1917 e fundador do Estado soviético, o primeiro governo comunista do mundo, logo pôs fim às pretensões “internacionalizantes” dos marxistas. A igreja de Roma não conseguiu uma presença marcante no mundo árabe, na Ásia e na África. Sua influência conteve-se à Europa e aos países americanos de colonização ibérica. Porém ambos convergiram novamente. Comunistas e católicos (estes principalmente depois do Concílio Vaticano II e da teoria da libertação, principalmente na América Latina) elegeram o mercado como o vilão do século.

Que comunista e católicos estivessem certos ou errados, não há como contestar um fato: a realidade do fim do século, para o bem ou para o mal da humanidade, é a internacionalização do mercado. Internacionalização que eles não conseguiram para si, mercado que eles combatiam.

2. O QUE É GLOBALIZAÇÃO

Globalização é a palavra da moda nas ciências econômicas. Não por formulações teóricas, mas por puro pragmatismo. Os fatos se impuseram aos estudiosos. Para ser sintético, pode-se dizer que globalização, em estado perfeito, seria a economia de mercado sem fronteiras, com a menor intervenção do governo nas trocas internacionais. Esse estado ideal não foi conseguido. O que há hoje é uma maior liberdade econômica, com uma crescente parcela da população do mundo se beneficiando do comércio internacional, quer como consumidora de produtos importados, quer como produtora de mercadorias exportadas.

Por outro lado, a Organização Mundial do Comércio, a OMC, tem forçado os governos reticentes a liberalizar suas operações de trocas externas, fazendo no comércio o que o Fundo Monetário Internacional, o FMI, faz ao forçar a desregulamentação das transações financeiras entre as nações. As lojas de New York vendem suvenires da estátua da liberdade ou do Empire State Building fabricados na China, em Singapura ou em outro tigre asiático qualquer, roupas da América Central e equipamentos eletrônicos japoneses. Em Pequim e em Moscou se pode comer um Big Mac, tomando Coca-Cola ou Pepsicola. Londres é a sede da afamada linha esportiva Reebok, mas os produtos da marca ali vendidos podem ter sido fabricados na Coréia do Sul, na Tailândia ou na Indonésia. Os automóveis fabricados em todo o mundo são consumidos, indistintamente, em toda a parte do planeta. Há carros “japoneses” fabricados na Europa e nos Estados Unidos. Isso para não falar nos filmes de Hollywood, assistidos nas maiores cidades e nos menores povoados de todos os países.

3. A CONCEPÇÃO DO PARADIGMA

Para localizarmos, historicamente, o início do processo de internacionalização das relações comerciais, temos que retroceder aos descobrimentos ibéricos do final do século XV, quando portugueses e espan
hóis se lançaram ao mar desconhecido, em busca do caminho das Índias. Esse foi o passo que quebrou as economias fechadas da Europa de então, proporcionando meios de comercialização de mercadorias européias na Ásia, África e América e de produtos dessas novas regiões no mercado internacional, se bem que em pequena escala.

O passo seguinte foi o colonialismo, também um movimento europeu, que sedimentou o mercantilismo e intensificou a quantidade das trocas internacionais, objeto mesmo da empresa colonial. Junto com o comércio, intensificaram-se as relações culturais, que alteraram costumes e comportamentos de colonizados e colonizadores, num processo de assimilação mútua.

Desmoronado a partir do final da Segunda Guerra mundial, em 1945, o colonialismo deixou herdeiras: as empresas multinacionais que, a partir de então controlaram o comércio entre as nações do mundo, naquilo que se convencionou chamar de imperialismo econômico. Essas organizações (Lodge, 1996: 78 e seguintes) são as maiores de alcance além-fronteiras. Na esfera capitalista, eram as norte-americanas: Exxon, General Motors, General Electric, MacDonald Douglas, Dow Chemical; as inglesas, British Petroleum, Guinnes, Rolls-Royce; as alemãs, Krupp, Siemens, Bayer; as francesas, Alsthon, Citroen, Renault, Elf; as italianas, Fiat, Agip, Pirelli; as japonesas, Honda, Sony, Mitsubishi, e as suíças, Nestlé e Ciba-Geigy. No mundo atrás da cortina de ferro, eram as grandes corporações estatais soviéticas e chinesas – e algumas poucas da Checoslováquia e da Alemanha Oriental – que desempenhavam esse papel, com o mesmo caráter de exploração comercial.

Hoje, no final do século, as multinacionais estão tomando outra feição, estão lentamente perdendo as amarras com os interesses dos países que lhes deram origem e se tornando empresas transnacionais (Santos. 1997: 109), isto é, organizações sem limites fronteiriços. Essa demorada metamorfose não é resultado de planejamento interno, é conseqüência de movimentos endógenos à essas empresas. Porém ai
nda há um longo caminho a ser percorrido.

4. REDUZINDO FRONTEIRAS

A globalização comercial não poderia acontecer, entretanto, sem a participação ativa dos governos nacionais. Não como no tempo do mercantilismo, quando buscavam monopólio para as companhias privilegiadas dos seus países, mas, pelo contrário, propugnando pela queda das fronteiras, do protecionismo, dos incentivos aos produtores locais, das barreiras alfandegárias e tarifárias, pelo cooperação internacional. Faça-se notar que há um enorme diferencial entre as intenções e os fatos (Valle, 1997). Os Estados Unidos, o Japão, o Canadá e os países desenvolvidos da Europa, apesar dos discursos neoliberais, ainda possuem fortes esquemas de proteção às suas indústrias e à sua agricultura. Por sua vez, os países emergentes ainda relutam em aderir totalmente à nova onda.

Não obstante, alguns movimentos estão indo em direção ao caminho de redução das fronteiras econômicas. A associação de países em organismos regionais, com regulamentação comum aos seus integrantes, é um desses passos. A formação do Mercosul provocou a intensificação das transações comerciais e financeiras entre o Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. O Nafta, a associação dos Estados Unidos, Canadá e México incentivou o crescimento dos negócios na América do Norte. Na Europa, a Comunidade Econômica teve resultado idêntico. O mesmo aconteceu no Sudeste Asiático.

5. A ECONOMIA VIRTUAL

O desenvolvimento tecnológico, acontecido nas três últimas décadas do século XX, propiciou o aperfeiçoamento, a simplificação e o barateamento dos custos das comunicações internacionais. Um vasta rede de satélites quebrou a barreira das distâncias entre os povos e forneceu condições para a transmissão de som, imagem e dados em tempo real, transformando o planeta em uma quase aldeia global.

Essas condições deram lugar a uma extensa rede de comunicações, usadas por empresas financeiras do mundo todo. Aplicadores de Londres, Paris, New York, São Paulo, Buenos Aires, Tóquio e
Frankfurt, por exemplo, podem-se fazer presentes nos pregões das bolsas dessas cidades, interagindo entre si. Entretanto, são as instituições administradoras de fundos, que geram recursos que somam mais de dez trilhões de dólares, as mais ágeis na utilização do sistema. Operadores do mercado, em frente aos seus computadores, comandam entrada e saída nas bolsas, aplicando e resgatando somas volumosas em ações de empresas, no mercado de futuros ou em títulos públicos. Vivem um mercado virtual, onde o capital é remunerado quase por si mesmo, quase desassociado da produção.

6. A INTERNACIONALIZAÇÃO DA PRODUÇÃO

Num movimento que se iniciou logo após a Segunda Grande Guerra, o sistema produtivo mundial sofreu um processo de fragmentação e integração da produção, nunca visto até então. A antiga divisão do trabalho, defendida e de certa maneira imposta pelas grandes potências mundiais, segundo a qual alguns países – e mesmo regiões do mundo eram vocacionados para certos tipos de atividades (o centro industrial e financeiro, a periferia agrícola e mineradora; os países adiantados produzindo bens de tecnologia avançada e os países subdesenvolvidos produzindo matéria-prima com baixo índice de tecnologia), cedeu lugar à uma nova realidade. Barnet e Cavanagh assim descrevem esse panorama: “Na segunda metade do século XX, o sistema produtivo global foi transformado. O aparecimento dos sindicatos, a incorporação da mulher, raça e nacionalidade (como aspectos relacionados) da força de trabalho, as mudanças nas relações trabalhador-administração e a quantidade cada vez maior de bandeiras estrangeiras ondulando nas portas das sedes centrais (das multinacionais) de todo o mundo, anunciaram uma nova era da história do trabalho. As colossais linhas de montagens imaginadas por Henry Ford e Joseph Stalin, entretanto são bem visíveis, muitas delas agora em lugares remotos, um pouco maiores que antes, ainda que o trabalho mundial seja efetuado cada vez menos nessas fábricas. Uma das razões é que a produção de bens foi
distribuída entre unidades menores ao redor do mundo, sendo realizada por subcontratados, fornecedores e trabalhadores temporários, muito dos quais cortam, cosem e processam informações em seus lares. Porém a causa principal é que, em todo o mundo, cada vez mais o trabalho não mais se relaciona com o processo de fabricação”
(1995: 255).

A série de perguntas a se fazer é: Por que essa reversão de tendência? Por que a industrialização das economias periféricas? Por que isso resultou na indústria globalizada? Por que grandes plantas industriais se complementam até com trabalho caseiro? Em primeiro lugar, o desenvolvimento das relações financeiras, comerciais e mesmo políticas, após a quebra da fronteira comercial da China e a queda do muro de Berlim, fizeram com que a antiga divisão internacional do trabalho ficasse irracional. Todas as nações ganharam direito a um lugar ao sol (pois mais sombra que algumas ainda façam). Além do mais, nos países do terceiro mundo as matérias-primas básicas são mais baratas, assim como o custo da mão-de-obra, aluguéis, tributos etc. A par disso, há o grande despertar da população dos países desenvolvidos para os problemas ecológicos, principalmente para os perigos que os dejetos industriais representam para a saúde pública, os estresses provocados pelo trabalho industrial e os desastres como o provocado pelo petroleiro Exxo Valdez no Alasca. Esses fatos foram uns dos que empurraram as indústrias para os países emergentes.

A grande maioria das indústrias instaladas nos países subdesenvolvidos são subsidiárias de empresas localizadas em países do primeiro mundo; quando não subsidiárias, são controladas, associadas ou funcionam com base em licença de marca, patente ou simples transferência autorizada de tecnologia. Em qualquer dessas formas, elas estariam umbilicalmente ligadas às matrizes detentoras do capital e/ou à tecnologia de produção.

O grande número de implantação de empresas industriais ao redor do mundo resultou na indústria globalizada, ao ensejar q
ue os mesmos produtos fossem produzidos em vários países, utilizando matérias-primas e tecnologias similares. Não importa onde sejam produzidos, se no primeiro, no segundo ou terceiro mundo – aqui entendidos como os países desenvolvidos da Europa, Estados Unidos, Canadá e Japão; os países do leste europeu e os países subdesenvolvidos, respectivamente. A indústria automobilística é um exemplo disso. Vejamos alguns exemplos:

Coréia do Sul – A Ford participa do capital da Kia, com 10%, que fabrica o sub-compacto Aspire para exportação para os Estados Unidos e comercializa veículos Ford no país.
China – A Chrysler detém 42% da Beijing Jeep, em parceria com a Beijing Automobili Works.
Venezuela – A General Motors fabrica carros da Suzuki.
Suécia – A mesma General Motor participa com 50% do capital da Saad.
Austrália – Toyota e General Motors são sócios com partes iguais, na fabricação de veículos de ambas as marcas.
Portugal – Ford e Volkswagen associaram-se para fabricar minivans.
Espanha – Ford e Nissan associaram-se para fabricar utilitários esportivos.
Áustria – Chrysler e Steyr-Daimler-Puch têm participação de meio a meio, em uma fábrica destinada a produzir minivans. A Steyr-DaimlerPuch monta em suas próprias instalações veículos da marca Chrysler, principalmente o Jeep Grand Cherokee.
Canadá – General Motors e Suzuki possuem uma unidade, onde são montados veículos das duas marcas.
Japão – A Ford participa com 25% do capital da Mazda. As duas empresas possuem 36,55% (cada uma delas) da empresa que comercializa os produtos da Ford no Japão. A Mazda fornece serviços de engenharia para a empresa americana e vende os carros da Ford na Ásia. A Mitsubishi fabrica veículos da linha Dodge e os exporta para a Chrysler, que os vende no seus país. A General Motors possui 3,5% do capital da Suzuki, que monta veículos para a empresa dos Estados Unidos, e 37,5% do capital da Isuzu, com a qual
possui em contrato de distribuição mútua em todo o mundo.
Estados Unidos – Em Michigan, Ford e Mazda são sócias na Auto-Alliance, que produz veículos de ambas as marcas. Em Ohio, Ford e Nissan desenvolvem as minivans Mercury Villager e Nissan Quest. Em Illinois, A Chrysler era sócia da Mitsubishi. Atualmente continua fornecendo à indústria japonesa motores e componentes, além de ficar com metade da produção da fábrica ali localizada. Na Califórnia, General Motors e Toyota são parceiras, com partes iguais, em uma montadora. No Kentucky e em New Jersey, a Ford monta veículos da marca Mazda.
Brasil e Argentina – Ford e Volkswagen mantiveram uma joint venture, a Autolatina, para a fabricação de veículos das duas montadoras.

Se sairmos da esfera automobilística, encontraremos equipamentos de som, de fotografias, computadores e eletrodomésticos de todos os tipos, portes e com os mais variados níveis de tecnologias fabricados na Europa, América, Ásia, Oceania e até mesmo na África. O passo que agora se sedimenta é em direção às chamadas indústrias de ponta, àquelas que necessitam de elevados recursos de capital e/ou tecnologia. As empresas aeronáutica e aeroespacial dos Estados Unidos e da Europa Ocidental se abastecem de componentes no leste europeu e mesmo na América Latina. A indústria de química fina já se instala nas economias periféricas – Segundo o Novo Dicionário Aurélio, química fina é “Ramo da atividade química industrial que elabora, a partir de insumos produzidos pelas indústrias químicas de base (p. ex., a petroquímica). substâncias mais complexas, destinadas a aplicações específicas. A química fina se caracteriza por processos descontínuos, em várias etapas. e em pequena escala, visando produtos de alta relação preço/peso. As substâncias ativas empregadas na indústria famíacêutica (fármacos), os catalisadores da indústria química e os reagentes de alta pureza usados em análises e pesquisas químicas são típicos produtos da química fina”.

Há algo mais. Com os comput
adores pessoais e as redes de comunicação, tipo Internet e outras de Intranet, permitindo fácil trânsito de dados e informações entre pontos distantes, não há porque atividades criativas serem exercidas em locais onde as pessoas fiquem juntas fisicamente. Muitos engenheiros, arquitetos, contadores, economistas, publicitários e até administradores de empresas hoje trabalham em suas próprias residências, produzindo muito mais, com um custo muito menor para as empresas, quer como empregados das empresas ou realizando serviços terceirizados.

7. UM PROCESSO CONTINUADO, COM ALGUMAS PARADAS

É a globalização algo novo, algo que somente agora chegou para a humanidade? Não. A internacionalização das relações de negócios é fato muito antigo na história dos povos. O novo é como este fenômeno se apresenta, é a sua intensidade, neste final de século.

Os europeus – que geralmente tomam o seu continente como sendo o próprio undo – dizem que a primeira ocorrência de mundialização da economia deu-se com a expansão do império romano” que, ao crescer, estendeu um sistema viário de comunicação terrestre e marítimo que permitia fácil ligação entre as várias províncias (e protetorados), o que facilitava a troca de produtos entre elas e a própria Roma. Paralelamente a isso, Roma espalhou pelo seu mundo a sua língua, a sua moeda, o seu sistema de propriedade privada, as suas leis e o seu modo de pensar. Isso somente foi possível pela proteção que o seu sistema militar dava à economia dos impérios que, por sua vez, sustentava todo o arcabouço imperial. Antes dos romanos, nenhum outro povo – gregos, egípcios, chineses etc – tinha realizado tal feito – Para uma melhor compreensão da estrutura do império romano, ver MOMMSEN, citado na bibliografia no final desta matéria.

Após a queda de Roma e o desmantelamento do seu império, a Europa entrou em um período de esfacelamento do governo central e de drástica redução dos negócios. O mundo feudal nada mais era do que a redução do poder, das relações entre comunidades
e povos, do comércio. Porém, mesmo então havia um certo nível de trocas comerciais entre nações – Para maior conhecimento das relações comerciais no período feudal, ver BRUDEL, citado na bibliografia no final desta matéria.

Se entendermos global como relativo ao globo terrestre, se entendermos que o conceito de global envolve algo mais que a mundialização mediterrânica, então teremos de reconhecer que a primeira etapa real da globalização aconteceu com as viagens – termo mais apropriado que descobertas – e os seqüentes negócios que os ibéricos fizeram no final de século XV e início do séculos XVI. Este fato realmente integrou o mundo, impondo um padrão de trocas comerciais que atingia todos os continentes. O feito ibérico foi seguido e aperfeiçoado por outros povos europeus, os holandeses, ingleses, franceses etc., que exploraram mais intensamente as rotas abertas pelos portugueses e espanhóis. O açúcar do Brasil e das Antilhas passou a ser comercializado na Europa, na Ásia e na África. Especiarias do oriente pimenta, nós moscada etc. – eram disponíveis nos mercados de Lisboa, Amsterdã, Bahia, Londres. Tecidos também da Ásia eram vendidos na África, nas Américas e na Europa. Algodão dos Estados Unidos e do Maranhão supria os teares da Inglaterra e dos Países Baixos. O fumo da América era consumido por árabes, europeus, africanos, chineses e hindus. A prata do México e de Potosi e o ouro do Brasil provocavam inflação na Europa. Escravos africanos eram vendidos na América, na Europa e na Ásia (o quadro escabroso de uma época). Segundo Aldo Ferrer: “a partir da conquista da América e da abertura das rotas oceânicas para o Oriente, a expansão do comércio intercontinental provocou transformações profundas no desenvolvimento do capitalismo comercial. Maior que o aumento do tráfico intra-europeu nas costas do Mediterrâneo, do Báltico e do Mar do Norte, foram as novas fronteiras abertas pela expansão de ultramar que impulsionaram o desenvolvimento e a transformação do sistema. Em parte porque aumentou o peso r
elativo do tráfico intercontinental e, conseqüentemente, o comércio intra-europeu de produtos de ultramar. Porém, sobre tudo, porque a conquista e colonização do Novo Mundo e o desenvolvimento das rotas interoceânicas com a África e o Oriente confrontaram as potências atlânticas com problemas radicalmente distintos do comércio tradicional”
. (1996: 180-181)

É claro que o produto desse comércio era consumido por uma pequena camada da população do mundo. Nem todo árabe tinha condição de comprar fumo, nem todo londrino podia usar especiarias do oriente. Muito embora houvesse uma rede de comunicação comercial, ligando as partes mais longínquas do mundo, do as trocas de mercadorias eram em quantidade nunca vistas antes, ainda assim os produtos importados e exportados por cada região o eram em montante que atingia somente uma pequena parcela da população. Além do mais, os fatos econômicos acontecidos em uma região raramente tinham reflexo importantes em outras – quando muito a ocorrência da matriz atingia uma ou mais colônias ou vice-versa.

Leve-se em consideração que essa foi a época do mercantilismo, quando as potências européias restringiam as transações comerciais das colônias às suas próprias matrizes e as instalações produtoras nas colônias somente foram relevantes na América. Na África e na Ásia o predominante era o assentamento de feitorias com representantes dos governos centrais e alguns poucos colonos.

Uma outra fase do crescimento do processo da globalização teve início no final do século XVIII, com as revoluções industrial inglesa e republicana francesa, que se desenvolveu com a paz após as guerras napoleônicas e se sedimentou com o colonialismo europeu na África e na Ásia.

Com a revolução industrial, diz Hobsbawm: “…foram retirados os grilhões do poder produtivo das sociedades humanas, que daí em diante se tornaram capazes da multiplicação rápida, constante, e até o presente ilimitada, de homens, mercadorias e serviços. Este fato é hoje tecnicamente conhecido pelos eco
nomistas como a ‘partida para o crescimento auto-sustentável’. Nenhuma sociedade anterior tinha sido capaz de transpor o teto que uma estrutura social préindustrial, uma tecnologia e uma ciência deficientes, e conseqüentemente, o colapso, a fome, a marte periódicas, impunham à produção (…). A dianteira no crescimento industrial foi tomada por fabricantes de mercadorias de consumo de massa – principalmente, mas não exclusivamente produtos têxteis – porque o mercado para tais mercadorias já existia e os homens de negócio podiam ver claramente suas possibilidades de expansão (…). As possibilidades conseqüentes de expansão podem ser observadas no pequeno quadro que segue, onde é apreciado o crescimento a partir de 1815:

CONSUMO DE TECIDOS DE ALGODÃO BRITÃNICOS, EM MILHÕES DE JARDAS, NOS ANOS DE 1820, 1840 e 1860

Europa: 128, 200 e 201
Estados Unidos: 24, 32 e 227
América Latina: 56, 279 e 527
Índias Orientais: 11, 145 e 825
China: 3, 30 e 324″
(1977: 44 e 49; 1979: 119)

Essa a nova fase do colonialismo europeu, embora não tão explorador como a colonização da América, não deixou de ser obscuro e extrator de riquezas, agora de outros povos, alguns dos quais já por eles explorados. Entretanto é inegável dois fatos: a grande transferência de capitais financeiros e de bens de produção das economias centrais para as economias periféricas e, em maior grandeza, de mercadorias principalmente de matérias-primas e alimentos – das economias dependentes para os centros financeiros e empresariais. Paralelo à corrente de financeiros e de produtos, uma outra cresceu no século passado: a migração européia para as Américas, Austrália e, em menor número, para a África e Ásia.

No dizer dos marxistas, esta foi a era por excelência do imperialismo. Rosa Luxemburg, no seu célebre livro A Acumulação do Capital (1976), diz que: “…a fase imperialista da acumulação do capital, ou a fase da concorrência mundial do capitalismo, abrange a industrialização e emancipação capitalista dos países
atrasados a expensas dos quais o capital obteve sua mais-valia (…). A implantação da economia de mercado em substituição da economia natural, e a da produção capitalista em substituição da primeira, impuseram-se por meio de guerra, crises e aniquilamento de camadas sociais inteiras (…). A acumulação capitalista tem, como todo processo histórico concreto, dois aspectos distintos. De um lado, tem lugar nos lugares de produção de mais-valia – na fábrica, na mina, nas propriedades agrícolas e na circulação de mercadorias (…). O outro aspecto de acumulação do capital realiza-se entre o capital e as formas de produção não-capitalistas. Esse processo desenvolve-se no cenário mundial. Aqui os métodos são a política colonial, o sistema de empréstimo internacional, a política de interesses privados, a guerra”
. (1976: 365 e 398)

Com bons ou maus resultados, essa primeira fase de internacionalização do capitalismo e terceira do processo de globalização da economia (a primeira foi a do Império Romano, a segunda a do mercantilismo), alterou a vida da maioria dos habitantes do planeta. Produziu mais alimentos, mais medicamentos, mais vestuário e habitação do que todos as épocas anteriores da história da humanidade, aumentando a expectativa de vida das pessoas em quase todos os países. Enquanto durou esse período, houve uma intenção de massificação de consumo de mercadorias produzidas no mundo inteiro. A borracha produzida no Brasil (e depois na Indonésia) era produto comum em todos os países; os ingleses vendiam folhas de chá, produzidas na China e na Índia; os trilhos das ferrovias chegavam em qualquer lugar onde existissem matérias-primas de que os países colonialistas necessitassem; os estadunidenses empurravam suas fronteiras para o oeste, em direção ao Oceano Pacífico, e ao sul, procurando as margens do Rio Grande, sempre adicionando novas terras à sua agricultura e pecuária; casacos de peles de animais do Canadá, do Alasca e do norte da Europa eram vendidos em Paris, Londres, New York, Buenos Aires; no
começo do século XX um brasileiro voava nos céus da França, os carros do sr. Ford começaram a se espalhar pelo mundo e a luz elétrica e o telefone chegavam a quase todos os lugares. A Primeira Grande Guerra, a crise provocada pela quebra da bolsa de New York, que se estendeu por toda a década de trinta e a Segunda Grande Guerra, estancaram o processo.

Porém nos anos quarenta, logo após o pós-guerra, há a retomada. As antigas potências perderam seus lugares e surgem duas novas. No lado ocidental, os Estados Unidos; no leste, a União Soviética. Os velhos colonizadores perderam suas forças no combate. A Alemanha, a Itália e o Japão, derrotados que foram; a França, com colônias apenas no norte da África e na Indochina, as quais logo perderia. O Império Britânico, onde o sol nunca se punha, estava reduzido a um potentado impotente, como disse um dos seus ilustres súditos. Aos poucos foi perdendo suas colônias e se adaptando à nova realidade e hoje novamente é uma das economias estáveis do planeta. O fato impressionante foi a rápida reorganização e recuperação da economia dos países destroçados pela guerra, mesmo que contando com a ajuda de bilhões de dólares norte-americanos. Japão, Alemanha, Inglaterra, França e Itália juntaram-se aos Estados Unidos e ao Canadá, fazendo o grupo dos chamados Sete Grandes da economia mundial.

O cenário para uma etapa nova da globalização estava preparado, e contou com novas contribuições: o Fundo Monetário Internacional e o Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento, mais conhecido como Banco Mundial ou simplesmente BIRD, fundados em 1945, passaram por uma série de transformações; o GATT, o Acordo Geral Sobre Tarifas e Comércio, cedeu lugar para a OMC, a Organização Mundial do Comércio e o império soviético ruiu por si mesmo.

8. SÍNTESE

A pergunta que se faz agora é: qual o futuro da globalização? Para responder a essa pergunta é necessário, primeiro, que se rememore qual o conceito de globalização, hoje em dia. Há várias bases em que se sustenta
essa intensa rede de relações e de negócios internacionais:

– Uma grande movimentação de recursos financeiros fluindo entre os países, sem a intervenção de seus governos.
– Uma grande corrente de produtos (matérias-primas, produtos semi-elaborados, bens finais de consumo e de produção) entre países de todos os continentes.
– Uma extensa rede eletrônica de comunicação de som, imagem e dados, ligando os povos.
– Aceitação tácita de uma língua, o inglês, como via de entendimento internacional.
– Um alto nível de tecnologia (industrial, de busca e processamento de dados, de engenharia genética etc.) possível de ser usada em diferentes lugares do mundo.
– Uma crescente adesão de países aos mercados regionais, com áreas de livre comércio (por exemplo: Mercosul, Nafta e União Européia), e desses mercados entre si.

Dispondo desses instrumentos, a humanidade tem três horizontes que se apresentam a sua frente. Se o processo de globalização seguir sem grandes obstáculos, teremos uma civilização global, não só com uma economia mundial, mas com uma cultura e um estilo de vida comum, claro que com as peculiaridades regionais; se os blocos regionais tomarem posições inflexíveis, haverá uma economia regionalizada, com uma cultura mais os menos internacionalizada, e, em outra situação, poderia haver um ressurgimento do nacionalismo xenófobo, que faria retardar ou, na pior das hipóteses, retroceder todo o processo de planetalização do ser humano.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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