A ENTREVISTA QUE NÃO FOI

Tomislav R. Femenick

vinheta175

Verificando os meus alfarrábios, deparo-me com uma reportagem que distribui para vários órgãos da imprensa nacional, mas que somente tenho recortes do “Diário de Pernambuco”, do Recife, e “O Povo”, de Fortaleza. Trata-se de matéria sobre a visita que o presidente Costa e Silva fez a Mossoró-RN, no final de 1967. A reportagem foi distribuída pela Agência Nacional (órgão encarregado de divulgar as notícias de interesse do governo federal) como se fosse de sua autoria, porém ela teve como base a matéria escrita por mim e remetida, via telegráfica para as redações dos jornais que publicavam os meus textos. Não sei como a agência de notícias do governo federal teve acesso à reportagem original e incorporou parte dela (com alguns acréscimos laudatórios) ao noticiário que distribuiu à imprensa nacional. Na época se vivia tempo difícil e não havia a quem reclamar.

 A reportagem descrevia as inaugurações que o presidente fez na cidade, e dela apresento aqui uma versão compacta:

 “O Avro presidencial aterrissou no aeroporto de Mossoró às 12:40 horas, do dia 22 de dezembro de 1967. Ao descer da aeronave, o presidente Arthur da Costa e Silva foi cumprimentado pelo governador do RN, pelo comandante do IV Exército e pelo presidente do INDA, Dr. Dix-Huit Rosado. Após passar em revista as tropas, foi cumprimentado pelos governadores de Pernambuco e Ceará, pelo prefeito de Mossoró, sr. Raimundo Soares, e outras autoridades. Em seguida o presidente deslocou-se para o triângulo ferroviário, a fim de inaugurar o “Poço Costa e Silva”, cuja água se assemelha – de acordo com análises – às águas minerais de melhor qualidade. Depois a comitiva presidencial foi para o edifício Epílogo de Campos, nova sede da Faculdade de Ciências Econômicas, onde o chefe da nação descerrou uma fita inaugural. Encerrado este ato, o presidente da República dirigiu-se à ESAM-Escola Superior de Agricultura de Mossoró, dando-a por inaugurada, ao cortar a fita simbólica. No mesmo local, deu por inauguradas as linhas de transmissão da CHESF, ligando Paulo Afonso à Mossoró. Mais tarde, houve um almoço na ACDP”, cujo prato principal foi a celebre Carne Assada do Lira, levada de Natal para Mossoró por aviões da FAB”.

 Generalizando e correndo o risco de errar, podemos dizer que nós mossoroenses só relacionamos o governo do marechal Artur da Costa e Silva com essa sua passagem pela cidade e com a inauguração desses quatro inegáveis benefícios. Por outro lado, é comum nos esquecermos de que foi no seu governo que a ditadura começou a mostrar a sua cara mais cruel.

 A história política do marechal presidente teve origem – como a maioria dos seus colegas – nos movimentos tenentistas dos anos 20. Em 1922 tomou parte na tentativa de levante do 1º Regimento de Infantaria da Vila Militar do Rio de Janeiro, dois anos depois participou de novo levante tenentista e planejava aderir à Coluna Prestes. Já no governo João Goulart, quando comandava o IV Exército, reprimiu violentamente as manifestações estudantis no Nordeste, motivo pelo qual foi afastado do cargo.

Após a derrubada do presidente João Goulart, Costa e Silva chefiava o Comando Supremo da revolução quando fui editado o Ato Institucional Nº 1, que suspendeu a vigência da constituição, alterou o processo de elaboração legislativa e autorizava o comando da revolução a aplicar punições sumárias, ao longo de três meses. Em março de 1967 foi eleito presidente da República e, no ano seguinte, editou um novo Ato Institucional, o terrível AI-5, que deu poderes discricionários ao regime, inclusive os de fechar o Congresso, cassar mandatos, censurar os meios de comunicação, suspender direitos políticos, a aplicação do habeas corpus e anular direitos individuais, bem como previa medidas que incluíram a pena de morte e prisão perpétua para crimes políticos, o fim das imunidades parlamentares e a transferência de funções do Legislativo para o Executivo.

 Quando de sua vinda à Mossoró, por intercessão de Dix-huit Rosado, consegui marcar uma entrevista com o presidente Costa e Silva. Quando me preparava para fazer as perguntas, um assessor entregou-me umas folhas de papel com as perguntas e as respostas já prontas. Disse que poderia fazer mais uma por conta própria. Fiz:

 – Presidente, quando vão se iniciar as obras de recuperação da Estrada de Ferro Mossoró-Souza?

 A resposta foi curta e grossa:

 – Logo.

 Depois apertou a minha mão e foi embora. Como as perguntas não eram minhas e as respostas não diziam nada, não mandei a entrevista para os jornais.

 Notas – Na foto o presidente Costa e Silva, João Batista Cascudo Rodrigues e o jornalista Tomislav R. Femenick. No início de 1968, quando fui convocado a comparecer ao IV Exército, em Recife, tive que explicar por que não publiquei a entrevista que, na verdade, nunca foi entrevista.