A economia, a matemática e a “lei de Gerson”

Tomislav R. Femenick

vinheta154 c

Para nós, estudantes do curso ginasial do Colégio Diocesano Santa Luzia de Mossoró, a matemática era um campo mais que misterioso. Era um mundo cheio de intrincadas elucubrações, fórmulas e equações que somente os seletos entendiam. Para complicar mais ainda, havia o professor Solon Moura, um mestre das antigas que, achávamos nós, fazia de seu imenso saber matemático um pedestal com muitos degraus, todos intransponível. O resultado é que nós daquela geração víamos a matéria como um monstro de sete cabeças. Todas horrendas e motivos de horríveis pesadelos nas vésperas das provas.

            Quando minha família foi morar em Alagoas, fui matriculado no Colégio Guido de Fontgalland, de Maceió. Notei, então, que os meus novos colegas também tinham resistência ao aprendizado de matemática, mesmo sem que lá houvesse a figura do professor Solon. Tempos depois vi que essa recusa inconsciente às coisas da disciplina era e ainda é generalizada. No ensino universitário, meus alunos de administração financeira, planejamento estratégico, orçamento e outras matérias correlatas (em São Paulo, Natal e – ocasionalmente – Rio de Janeiro, Paraná e Goiás) sempre apresentaram dificuldades em usar ferramentais matemáticos.

            Não poderia ser diferente. Segundo o Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, uma aprova aplicada em 2013 entre alunos de 15 e 16 anos pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil focou em 58º lugar, entre 65 países (atrás de Cazaquistão, México e Uruguai e à frente somente da Argentina, da Tunísia, da Jordânia, da Colômbia, do Catar, da Indonésia e do Peru).

            Qual a lição que podemos tirar desse fato? Todas as ciências, e até a música, têm na matemática sua base intrínseca ou seu alicerce teórico. Desde as descobertas de Isaac Newton, as ciências mais e mais se desenvolvem sempre mais e mais carentes dos instrumentais da matemática. Na economia o resultado é prático e direto. Seus efeitos são imediatos. Muito da produtividade (a relação entre a quantidade ou valor produzido e a quantidade ou o valor dos insumos aplicados à produção) de uma sociedade é decorrente da aplicação de ciências que se fundamentam na matemática. Daí a sua relação com a matriz produto, renda, consumo e poupança.

            Mas, afinal de contas, o que é que é a matemática e o que ela tem a haver com a economia? Sendo ela a forma essencial de análise lógica, realizada com utilização de números e símbolos, que lança mão do processo dedutivo, isto é, levado suas conclusões de resultados particulares para o geral de casos da mesma natureza, tem tudo a haver. Sem ela não haveria como evidenciar vários temas da economia tais como: equações do equilíbrio produto x consumo, os conjuntos, as relações, as funções, o teorema do valor médio, as séries temporais, os cálculos diferenciais e infinitesimais, por exemplo, nem como desenvolver gráficos, derivadas, logaritmos, integrais etc.

Nesse cenário é alentador o fato de um brasileiro, Arthu Ávila, que trabalha no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS), na França, ter sido escolhido entre os quatros cientistas para receber a Medalha Fields desde ano. É um prêmio atribuído pela União Internacional de Matemática, que premia matemáticos com menos de 40 anos e é considerado o Prêmio Nobel da categoria.

De concreto, com Arthu Ávila nós temos uma excepcionalidade, um matemático fora do comum entre os brasileiros, e uma exceção, um ponto fora da curva do imenso mar de péssimos alunos da disciplina. Qual a causa disso. Talvez seja o currículo escolar, o péssimo salário dos professores, as condições precárias das escolas e a “lei de Gerson”.

Tribuna do Norte. Natal, 17 ago. 2014.

O Mossoroense. Mossoró, 19 ago. 2014.