A CONFIGURAÇÃO DO HERÓI

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 07 maio 2007.
Gazeta do Oeste. Mossoró, 06 maio 2007.

No imaginário popular, a figura do homem-herói reúne em si atributos necessários para superar, de forma excepcional, um determinado problema de dimensão épica. O termo da língua portuguesa “herói” vem da palavra latina “héros, ois” que, por sua vez, deriva de um vocábulo grego que identificava um homem de valor extraordinário por seus feitos guerreiros ou pela sua magnanimidade. Para a mitologia grega, o herói era um ser semidivino, que se situava entre os deuses e os homens, ocupando, portanto, uma posição ambígua. A sua condição humana era marcada por toda a complexidade social, ética e psicológica do homem comum; sua parte divina lhe concedia características supra-humanas de fé, coragem, orgulho, força de vontade, determinação e paciência. Essa simbiose formava um ser guiado por ideais de liberdade, fraternidade, sacrifício, coragem, justiça, moral, paz.

Grandemente influenciada pelos gregos, a cultura romana também deu aos seus heróis uma configuração mista de divina e humana. No poema Eneida, de Virgílio, o herói é Enéias, filho de Vênus, a deusa do amor e da beleza, e do mortal Anquises. Ele viaja pela região que, atualmente, é a Itália e se torna o ancestral dos romanos. Mas os heróis romanos são eivados de grande ambiguidade moral: Rômulo assassinou seu irmão Remo, tornando-se único senhor da nova cidade; Tarpeia, filha de um oficial romano, deixa-se corromper e entrega a cidade aos Sabinos (uma tribo rival de Roma), em troca de promessas de ouro – isso para não falar nas estripulias e atos torpes dos Césares, Augustos e quase toda a sociedade romana.

Considerando que, no imaginário ocidental, o conceito de herói tem firmes raízes na mitologia greco-romana, temos que considerar, também, a ficção ibérica com suas figuras de heróis e anti-heróis. Destes últimos Dom Quixote de La Mancha, o grande personagem de Miguel de Cervantes, é o exemplo máximo: um herói sem causa, que luta apenas dirigido pela sua loucura. Em Portugal, não há como não recorrer aos Lusíadas, de Camões. No início há o discurso de Júpiter no Concílio dos Deuses do Olímpico, pregando a predestinação do povo português, no fim o receio de Baco de que os eles viessem a se tornar deuses.

No Brasil, o anti-herói se sobrepõe ao herói. O Nosso herói mitológico é Macunaíma, que vem do mundo fabuloso da Amazônia. Seu grito de guerra é quase um grito, pois está mais para um gemido: “Ai, que preguiça”. A sua maior virtude é viver sem trabalhar. Seu maior desejo é se deitar com algumas meninas de um bordel de São Paulo. Preguiçoso, oportunista, lascivo e feio, Macunaíma é, no dizer do seu criador, o grande Mário de Andrade, “um brasileiro bem brasileiro”.

Na vida real, as coisas são diferentes. A um homem não lhe bastam serem nobres e belas suas intenções. Seus atos também têm que ser emocionantes, o homem tem que conduzir seus sentimentos em direção aos sentimentos dos seus semelhantes, tem que demonstrar bondade, sabedoria e ação. Portanto, o emprego da retórica e dos discursos não faz o homem, o que faz dele um homem-herói é o uso que ele fazer dessas credenciais para construir a vida.

E quais têm sido os heróis do povo brasileiro, pelo menos no passado recente da nossa história? Vêm-me a lembrança poucos nomes: Ayrton Senna, Pelé. E quem mais? Bem, havia um torneiro mecânico, barbudo e de fala rouca, um líder de massa, um homem que lutava pelo bem e combatia o mal, era a favor do bom e contra o mau, lutava por uma vida decente para todos, contra a arrogância, a prepotência, a injustiça e pela simplicidade, o diálogo e pela justiça, principalmente para os mais humildes. Um líder que prometia um dia ser herói; bastava que lhe dessem oportunidade e armas. Deram, pois o elegeram Presidente da República. Hoje, acho que ele já se esqueceu que um dia foi metalúrgico e que, já lutou a luta justa, que combateu as oligarquias, as injustiças e os donos do poder. Hoje ele é “amigo do peito” de Delfim Neto, Sarney, Jáder Barbalho e até de Maluf. Para completar nomeou Mangabeira Unger ministro de não sei o que (alguém sabe dizer o que faz essa tal de Secretaria de Ações a Longo Prazo?), o mesmo Mangabeira Unger que, no dia 15 de novembro de 2005, publicou na Folha de São Paulo um artigo em que dizia que o “governo Lula é o mais corrupto de nossa história nacional. Corrupção tanto mais nefasta por servir à compra de congressistas, à politização da Polícia Federal e das agências reguladoras, ao achincalhamento dos partidos políticos e à tentativa de dobrar qualquer instituição do Estado capaz de se contrapor a seus desmandos” e, ainda, que era “obrigação do Congresso Nacional declarar prontamente o impedimento do presidente”.

PLANOS DA SUDENE PARA MOSSORÓ

No dia 6 de maio de 1969, publiquei nos jornais O Povo, de Fortaleza, Diário de Pernambuco, do Recife, e Diário de Natal, da capital do Estado, a seguinte matéria:

Em visita a Mossoró, o general Tácito de Oliveira, superintendente da Sudene, fez diversas considerações sobre os planos daquela instituição para a cidade. Falando sobre Universidade de Mossoró, disse: “A alegria maior que se pode ter de uma Universidade, nascida do esforço e do entusiasmo da gente nordestina, é quando ela prefere não caranguejar pela orla marítima mas seguir o rumo da interiorização. Se a universidade tem prestado e prestará grande contribuição à comunidade dos centros urbanos litorâneos, certamente mais o fará alcançando o “hinterland” brasileiro. A Universidade Regional do Rio Grande do Norte é um desses casos. Como ela a Sudene pensa realizar alguns convênios de pesquisas científicas ou tecnológicos através do FURENE-Fundo de Pesquisas e de Recursos Naturais do Nordeste”.

Sobre o saneamento básico, declarou que “Mossoró, sendo a cidade que mais cresce demograficamente na região, chegando mesmo a ter um crescimento exagerado, representa um desafio às autoridades na procura da solução dos seus problemas. Entre estes, talvez, o de maior envergadura seja a implantação do sistema de abastecimento de água e de esgotos sanitários. A Sudene já dispõe de recursos que se elevam a quase um milhão de cruzeiros novos para esse serviço. No entanto é evidente que esse montante é já estamos fazendo gestão junto a órgãos nacionais e pouco expressivo para uma obra de tal porte, pelo que fontes externas de financiamento, com o objetivo de captar recursos que venham assegurar ao Nordeste um amplo programa de saneamento básico. Incluindo-se Mossoró entre os centros selecionados a, prioritariamente, receberem aqueles benefícios”.

Sobre o porto salineiro, o general Tácito de Oliveira teceu as seguintes considerações: “Essa iniciativa do Ministro dos Transportes e da economia privada, tinha obrigatoriamente de contar com a ajuda e colaboração da SUDENE a que o seu projeto foi submetido para aprovação, com vistas a receber o indispensável financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico”.