A BOA COSTUREIRA

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 08 set. 2008.
O Mossoroense. Mossoró, 07 set. 2008.

Aramis, o mais moço dos três sobrinhos homens do “pastor” Ethevaldo, sempre foi o mais manhoso e astucioso. Quando pequenininho vivia aprontando alguma presepada ou querendo tirar vantagem de alguma situação. A principio, as peripécias do menino faziam todo mundo rir, inclusive sua mãe, Dona Ethelvina, a irmã do “pastor” Ethevaldo, e seu pai, o seu Cleodon da Prefeitura. Quando foi coroinha na igreja do Padre Aleixo, uma vez escondeu o badalo da companhia de ajudar missa. Todo mundo riu. Mas a coisa ficou diferente quando ele passou a vender as garrafas do vinho de missa para seu Geraldo, que trocava os rótulos e as revendia.

Crescidinho, Aramir revelou-se portador de outro pendor, uma propensão natural para as conquistas amorosas. As menininhas do Colégio das Freiras disputavam o direito de serem acompanhadas por ele até às suas casas, depois das aulas. Quando cresceu mais um pouco, descobriu as casas de outras meninas, aquelas de “vida fácil”, onde ele era recebido pelas madames e atendentes, todas de braços e pernas abertas. Perdia as aulas e passava as manhãs inteiras no desfrute dessas amizades. O negócio ficou feio para ele quando as contas começaram a chegar à casa do seu tio – seus pais já tinham morrido e era o tio que criava todos os sobrinhos. Homem sério, o “pastor” Ethevaldo acabou com aquela sem-vergonhice despachando Aramis para a capital, para estudar no Atheneu, um Colégio de respeito e com bons professores.

Na capital, o farsista se pôs a travar relações com Dona Maria Boa, uma excelente dona de pensão e mulher de grande relacionamento no meio político, intelectual, empresarial e todo mundo mais. Logo o jovem já estava exercendo o seu pendor para as artes mercantis, abrindo a que talvez tenha sido a primeira agência de turismo do Estado, se bem que informal. O desavergonhado arrebanhava alunos do sisudo Atheneu para fazer “passeios turísticos” na pensão de Dona Maria Boa, com direito aos abraços e às caricias íntimas de suas pupilas. Os passeios eram realizados no horário das aulas, mediante pagamento adiantado. Quando essas atividades comerciais “ilícitas, amorais e ilegais” (palavras transcritas da carta que o diretor do Atheneu dirigiu ao tio do malfadado aluno) foram descobertas pelo diretor da escola, o sobrinho do “pastor” de lá foi expulso.

Aramis já estava na casa dos vinte anos, quando propôs a Ethevaldo financia-lo em um negócio qualquer, na capital. O tio argumentou que argumentou que na sua cidade natal era melhor, pois ali ele conhecia tudo mundo e logo criaria uma freguesia etc. e tal. O sobrinho terminou convencendo o tio que na capital era melhor, lá tinha mais gente, ele também já era conhecido e outros que tais. Agora era escolher um ramo. Pensou numa loja de material de construção, mas se lembrou de um seu colega de farras, também de uma cidade do interior, que recentemente tinha aberto uma e que logo em seguido faliu. Numa livraria, mas viu que já havia muitas e ele nada sabia de livros. Numa sapataria, também. A ideia veio-lhe de repente. Uma loja de aviamentos para costura. As que haviam eram poucas e acanhadas, todas escondidas em bairros longes. Além do mais o ramo tinha uma grande vantagem: tirando os alfaiates – que eram poucos -, os compradores eram majoritariamente mulheres, inclusive algumas desesperadas balzaquianas, outras solitárias donas-de-casa; pronta para sua lábia. Juntando sua ideia com o dinheiro do tio, fez surgir “A Boa Costureira”, loja que vende linhas, agulhas, botões, fecho éclair, tecidos para forro, colchetes etc., tudo em material para acabamento de costura e bordado.

Foi como freguesa que ele conheceu uma recatada moça de família tradicional, que logo saiu com ele, que logo ficou grávida, que logo se casou com ele. O diabo é que Aramis tinha certeza que ele não fora o primeiro e não tinha certeza se o filho era realmente seu. Só não resistiu porque pensava se dar bem com o casamento. Depois descobriu que, embora tradicional, a família da mulher estava quase que na pobreza e que no currículo amoroso dela estavam quase todos os jovens da metrópole, inclusive o Bobinho Play-Boy, dono do Fontainebleau, restaurante de nome francês, mas que só serve carne-de-sol, macaxeira e jerimum.

Mais essas são outras histórias.