A ÁRVORE QUE DÁ DÓLARES

Tomislav R. Femenick
Tribuna do Norte
. Natal, 30 jan. 2011.

Em um dos seus livros, o historiador Raimundo Nonato fala do espírito empreendedor de José Rodrigues de Lima e de sua capacidade de descobrir o valor potencial de certas atividades produtivas. José Rodrigues de Lima era meu avô e me lembrei dessa sua característica quando escrevi sobre as exportações do Rio Grande do Norte referentes a 2010, ano em que, repetindo-se, as vendas de castanha de caju para o exterior ocuparam o primeiro lugar sendo, portanto, um grande gerador de salários para trabalhadores rurais e lucros para agricultores e industriais do setor.

Certa vez, quando eu era criança (faz tempo, e ponha tempo nisso) estávamos alguns de seus netos (no total éramos quase sessenta) jogando gude, porém substituíamos as bolinhas de vidro por castanha de caju. O meu avô que observava a brincadeira, nos disse que nós estávamos brincando com uma fortuna, pois no futuro a castanha iria valer muito dinheiro. É claro que ninguém prestou atenção naquela “conversa de velho”. Hoje a castanha de caju é o principal produto de exportação do Ceará e do Rio Grande do Norte. Em 2010 saíram pelos pontos de embarques de Ceará US$ 132,17 milhões e pelos nossos US$ 45,9 milhões. Mesmo a crise que abalou a economia internacional não afetou o consumo de castanha de caju nos Estados Unidos e na Europa, que registraram aumento de 8% e 5%, respectivamente. Nos mercados da Índia, China e do Oriente Médio o crescimento foi maior; atingiu dois dígitos.

Muito conhecida pelo consumo humano, principalmente como tira-gosto de bebidas alcoólicas e na culinária nordestina, a castanha de caju é rica em fibras, proteínas, minerais, vitaminas e, mais notadamente, carboidratos, cálcio, fósforo, sódio e aminoácidos. Por essas e outras qualidades, o chamado LCC (Líquido da Castanha de Caju) é usado nas indústrias farmacêutica, de isolantes elétricos, tinta, equipamentos automotivos, combustíveis, lubrificantes, detergentes, inseticidas, fungicidas, resinas, plásticos, impermeabilizantes, aglomerados e compensados.

O cajueiro é uma árvore natural do Brasil e, diferentemente do que muita gente pensa, o fruto verdadeiro é a castanha; a parte carnosa é apenas a haste que sustenta o fruto. Na língua tupi, caju, “acajú” ou “acaiu” tanto significa “noz” como “ano”. Câmara Cascudo dizia que “o cajueiro é elemento popular da marcação do tempo. Segundo o calendário dos tupis, acajú também significava ano, coincidindo com o ciclo de frutificação do cajueiro. Portanto, em cada ano, guardavam uma castanha da fruta em uma cabaça, sabendo assim a quantidade de anos já vividos. Daí veio a sinonímia popular para caju: ano”.

Alfredo de Carvalho, na obra Frases e palavras: problemas histórico-etimológicos (1906), escreveu que: “O calendário dos tupis, os mais progressivos dos nossos aborígenes, era, como o de todos os povos primitivos, pouco complicado, e a sua divisão do tempo extremamente simples; além do dia (ára, isto é, claridade, luz), distinguiam os meses pelas lunações (yacy, significando igualmente lua e mês). Para a contagem dos anos serviam-se das florações dos cajueiros […]. Daí na tradução oral acayu ou aca-iu refere-se a ano, uma vez que os indígenas contavam a idade a cada floração e safra”. Por sua vez Pereira da Costa, em Vocabulário Pernambucano (Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Pernambuco, v. XXXIV, 1937), afirmou que a colheita dos cajus “era para os índios a suspirada estação da fartura de víveres e da abundância, dos prazeres, das festas e das orgias prolongadas, e de uma embriaguez constante produzida pelo cauim. Aca-ju-im, o vinho de caju”.

No século XVI, os portugueses levaram o cajueiro, seu fruto e sua haste do Brasil para suas colônias na Ásia e na África, espalhando-o pelo mundo. Hoje o maior produtor de castanha de caju é o Vietnã (941,6 mil toneladas), seguido da Nigéria (636), Índia (573), Brasil (236,14) e Indonésia (122). Note-se que nosso país está em quarto lugar.

Como fator econômico a cultura do caju é de relevante importância para o nosso Estado. Além de possuir o maior cajueiro do mundo (fonte de renda do turismo receptivo), conforme dados do IBGE para 2009 o Rio Grande do Norte teve a segunda maior quantidade produzida (48.918 toneladas) e também o segundo maior valor da produção (R$ 47.869.000), embora tivesse a terceira colocação em área plantada e em área colhida – fato explicado pelo melhor rendimento; 386 quilos por hectare, superior ao do Ceará.

A mais antiga descrição escrita do cajueiro data de 1558, feita pelo frade franciscano, explorador, cosmólogo e escritor francês André Thevet, quando este veio ao Brasil integrando uma comitiva em visita a uma das tentativas francesas de fundar colônia na América do Sul. Ainda tenho em minha estante o exemplar do livro de André Thevet Singularidades da França Antarctica, que pertencia ao eu avô.