A Arte de Transigir

Tomislav R. Femenick
Boletim Unibero. São Paulo, nº 24, abr. 1996 


Mais cedo ou mais tarde aluno e professor, no decurso de suas respectivas atividades escolares, se defrontam com um problema que é, ao mesmo tempo, pedagógico, de caráter social e que pode comprometer o futuro do aluno ou da própria instituição de ensino. Desgraçando, não se tem encontrado solução para esse caso, não há visão do horizonte algo que possa amenizar que seja o seu peso. Mais grave, ainda, é o fato de que muitos dos envolvidos com o problema não enxergam a sua importância. É… estamos falando da cola, aquela inocente cola escolar que muitos praticam e muitos fazem que não a vêem.

Em 1652 ou 1743, foi editado em Amsterdã ou em Lisboa, não se sabe ao certo, um livro cuja autoria, por muito tempo, foi atribuída ao padre Antonio Vieira. Trata-se de “A Arte de Furtar”, uma severa crítica à sociedade portuguesa e do Brasil colônia – povo e governo. Como não poderia deixar de ser em um livro com tal título, o tema central (e também periférico) da obra era a roubalheira dominante, parte da qual ainda hoje anda livre e faceira por aí, não como herança colonial, mas como resultado da falta de caráter de muita gente, que se diz e se acha boa.

Essa introdução, se podemos dizer assim, tem como intuito chamar a atenção para o fato que, de tanto acontecer, está sendo normalmente aceito, como se fosse um procedimento normal, por ser corriqueiro. A expressão maio dessa aceitação foi a publicação por um dos maiores jornais do país, o Estado de São Paulo (o célebre e sério Estadão), de um suplemento voltado para o público estudantil, como o debochado título de Cola.

E o que é que há entre a Arte de Furtar e a Arte de Colar? É claro que há uma distância muito grande entre uma coisa e outra. Porém, do ponto de vista sociológico, estudando-se o comportamento predominante da sociedade, a similitude está em achar que o praticante do delito não é um delituoso. Há alunos, pais de alunos e até professores que acham que a cola é um recurso válido a ser usado pelo aluno, desde que não pelo professor. Esse raciocínio tortuoso localiza o erro no fato de ser flagado ao se errar, e não o fato de se cometer o erro.

A cola deve ser analisada sob vários ângulos. Primeiro sob o aspecto simplesmente educacional. O principal argumento usado, se não pelos defensores (pois a desfaçatez ainda não chega a tanto) mas pelos aceitantes da cola, é que o sistema de atribuição de notas não seria perfeito, pois não mediria o conhecimento do aluno sobre a matéria como um todo, mas somente sobre o que cai na prova; que o instante da prova não seria o melho para se medir conhecimento, pois a pressão psicológica inibiria o raciocínio (pura fantasia), etc. e tal. Até podem ser verdadeiros esses argumentos, porém eles só se tornam válidos se forem indicadas alternativas melhores do que o sistema de notas. Até então, o certo é que a “avaliação por notas pode não ser um sistema perfeito, mas ainda é o melhor sistema”.

Sob o ponto de vista do educador, uma atitude passiva perante o problema nada mais é do que um reconhecimento tácito da incapacidade de ensinar. Se não, uma acomodação aos fatos da vida, pecado mortal para aquele que deve dar exemplo a uma juventude tão carente de ideais. Tangenciar, contornar ou conviver com o problema certamente não é a melhor solução. O professor, o mestre, tem que encarar a cola de frente, não em seu próprio benefício, não para reprovar o aluno, mas sim para com que o aluno sinta a necessidade e a responsabilidade de aprender. Há outras e mais outras justificativas (fortalecer a moral, tão decaída ultimamente; não igualar alunos estudiosos com os não estudiosos; mostrar que o ilícito não compensa); todavia, só esta basta.

Agora, o que dizer do “colar ou não colar” ao aluno, ou seja, àquele a quem a cola mais interessa?. Aqui é que está o problema do problema, como diria o conselheiro Acácio. Hoje se vive para o dia de hoje, quando muito para amanhã de manhã. As preocupações são com as coisas imediatas. No instante da prova, o que importaria seria garantir a nota para passar, se possível sem fazer exame. E a matéria? Ora, a matéria seria algo de somenos importância.

Vamos analisar um pouco essa postura, essa maneira de se encarar as coisas. No entanto, antes precisamos nos fazer algumas importantes perguntas: para que o aluno vai à escola? Será que é simplesmente para passar o tempo ou para passar de ano? Será que não será será por algo mais importante como, por exemplo, adquirir conhecimento científicos, técnicos e profissionais para ser melhor qualificado como gente e na carreira que tenha escolhido? E como ser melhor se trapaceia? A qualificação certa é essa: quem cola trapaceia, e faz isso contra
os colegas, o professor e… contra si mesmo. Grandes homens, grandes mulheres não enganam aos outros e muito menos a si mesmos; olham todos nos olhos e se olham no espelho sem desviar o olhar. É ao aluno que mais interessa não colar, para no futuro não ser um fraco, um perdedor – como gente e como profissional.

E nós, professores, somente devemos formar e credenciar à sociedade pessoas e profissionais sérios, honestos e com a carga de saber necessária ao exercício da profissão para a qual os titulamos.