A AMEAÇA DA COLUNA PRESTE

Tomislav R. Femenick
O Jornal de Hoje. Natal, 26 fev. 2007.Gazeta do Oeste. Mossoró, 25 fev. 2007.

 

Apesar de todos os percalços porque passava Mossoró nos anos vinte do século passado, essa era uma cidade cobiçada. Mesmo com seu comércio enfrentando uma crise, era uma cidade pujante. Era a segunda maior do Estado, mas a sua economia fazia com que ela concorresse com a Capital. O Numero dos seus habitantes era igual a dois terços da população de Natal, a capital do Estado. Por suas estradas de rodagem rodavam caminhões levando e trazendo mercadorias. Possuia uma linha férrea ligando Porto Franco, no seu litoral, as minas de gesso localizadas no distrito de São Sebastião, atualmente Governador Dix-sept Rosado. Em suas terras ficava o maior parque salineiro do país, com salinas que se espalham pelas embocaduras dos rios Mossoró e Upanema. Ainda era um centro exportador de algodão, couros e peles e de cera de carnaúba. Possuía o único estabelecimento de crédito da região; uma agência do Banco do Brasil. Já contava com uma usina geradora de eletricidade, com três jornais (O Mossoroense, O Correio do Povo e O Nordeste) e quatro estabelecimentos de ensino ginasial. Tinha um cinema. Essa era a cidade no dia 31 de dezembro de 1926, quando o Padre Mota assumiu o posto de vigário paroquial.

Fato interessante é que, no mesmo dia em que o Padre Mota tomou posse como vigário da Matriz de Santa Luiza, correu em Mossoró a notícia de que os revoltosos da Coluna Prestes estavam na iminência de atacar a cidade. A Coluna Prestes era formada por militares rebeldes, principalmente pelos de São Paulo e do Rio Grande do Sul. Seus principais líderes foram Luís Carlos Prestes, Juarez Távora e Miguel Costa. Dois anos antes alguns deles já tinham tentado fazer uma revolução, tomando o Forte de Copacabana, mas fracassaram. Formados em pelotões, percorram cerca de 25 mil quilômetros pelo interior do país, fazendo uma “guerra de movimentos” e enfrentando as forças do governo. No final de 1926, com a metade dos homens dizimados pela cólera e sem condições de continuar a luta, a coluna se refugiou na Bolívia.

Quinze dias antes da posse de Padre Mota, o tenente João Alberto, um dos comandantes do movimento tenentista, ocupou a cidade de Crateús, no Ceará, onde travou luta com forças legalistas, mas já estava em direção do Rio Grande do Norte. João Alberto Lins de Barros, um misto de militar e político, participou tanto do movimento tenentista e como da coluna Prestes. Quando a Revolução de 1930 foi vitoriosa, foi nomeado chefe da Polícia da então Capital Federal. Em 1934, elegeu-se deputado federal constituinte por São Paulo e, no ano seguinte, obteve um mandato de deputado estadual constituinte em Pernambuco, sua terra natal. Foi embaixador do Brasil no Canadá; presidente da Coordenação de Mobilização Econômica – quando coordenou os esforços para a extração de borracha na Amazônia – e da Fundação Brasil Central. No fim do Estado Novo, ocupou novamente a chefia da Policia do Rio de Janeiro. Em 1947, foi eleito vereador no Rio. Foi presidente da companhia Transcontinental de aviação; diretor superintendente da Rádio Mayrink Veiga; fundador e primeiro presidente do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas. Participou da criação da Fundação Getúlio Vargas e foi presidente da Orquestra Sinfônica Brasileira.

Mas voltemos à Mossoró. O Padre Mota, na mesma ata paroquial de sua posse registrou o impacto que a noticia de um provável ataque da Coluna Preste a Mossoró teve entre a população da cidade: “Neste mesmo dia, espalhou-se pela cidade o terror da noticia de que os revoltosos se encaminhavam para nossas fronteiras, noticia que foi divulgada pela manhã, e logo começou o êxodo da população. Quando me dirigia para a Matriz, às 8 e meia, para a posse, fui, com surpresa, avisado do que se passava e sobretudo de que certas pessoas de autoridade e responsabilidade já haviam abandonado, precipitadamente, a cidade. Diante desta situação, resolvi fazer um apelo de tranqüilidade ao público, para melhor se resolver a situação e convocar uma sessão de todas as autoridades e pessoas de responsabilidade, o que fiz de púlpito, com palavras repassadas de fé no patrocínio de nossa Virgem Padroeira, Santa Luzia, e também de confiança no patriotismo do nosso povo. A sessão realizou-se no mesmo dia, a 1 hora da tarde, no edifício do Colégio Diocesano, com grande comparecimento de povo e nela tomaram-se medidas que são do domínio público. Dai por diante, nos dias de aflição e apreensão para o nosso povo, sempre tomei a dianteira de todas as manifestações civico-patrióticas pela defesa da nossa cidade, procurando, sobretudo despertar o ânimo do povo, aconselhando a calma, prudência e permanência na cidade, para guarda dos acontecimentos. Aprouve a Deus que tudo se passasse sem desgraças e atropelos para nosso povo; os rebeldes tomaram outro rumo e nossa população voltou à paz do costume, que a caracteriza. Todos [nós] reconhecemos, nesta salvação de tamanho flagelo, [que foi] o dedo de Deus que nos protegeu, por intercessão da nossa querida Padroeira Santa Luzia. Em reconhecimento de tão grande graça, cantou-se um ‘Te Devum’ solene, em ação de graças, no domingo, 21, pelas 5 horas da tarde”.

De fato, no Rio Grande do Norte o ataque das tropas rebeldes se deu, primeiro, contra a cidade de São Miguel, no dia 3 de fevereiro daquele ano. A luta foi travada por 70 revoltosos, militares treinados, contra quatro soldados da policia do Estado e 28 pistoleiros, “num tiroteio que durou das quatro horas da tarde até ao crepúsculo, com um rebelde morto e dois legalistas feridos. Um destes […] caiu nas mãos dos rebeldes e foi degolado”. A população mais abastada de São Miguel fez uma verdadeira debandada da cidade, quando se noticiou que outros mil rebeldes estavam se dirigindo para lá. No dia seguinte a cidade foi saqueada pelos integrantes da Coluna Prestes, que invadiam residências e lojas “arrebentando móveis e destruindo objetos que não podiam usar ou transportar. […] Partiram no mesmo dia em que chegaram, depois de queimar o Registro de Título e Documento”. De São Miguel foram para Luiz Gomes, onde repetiram o saque, invadiram e destruíram lojas e residências, levando tudo o que podiam, e novamente incendiaram o Cartório local.

AINDA VAVÁ – Valdecir dos Santos, o “Vavá”, era funcionário do Banco do Nordeste e locutor da Radio Difusora de Mossoró. Em uma campanha política da década de 60 do século passado, as forças políticas de Mossoró se posicionaram em duas trincheiras. Aluízio e seus aliados na Rádio Difusora e os Rosados na Radio Tapuyo. Era uma batalha diária de troca de informações e contra-informações, sempre visando angariar votos na seara do adversário. Nesse cenário, Jaime Hipólito Dantas idealizou fazer um programa sério e o fez, na Tapuyo, claro. No Horário do almoço, o de maior audiência, lançou o “Drops Político”. Drop, em inglês, quer dizer “gota”, “pequena parte”. O problema é que naquela época havia um tipo de bala doce, uma pastilha, com esse nome. Imediatamente Vavá, partiu para o contra-ataque: lançou um programa no mesmo horário, com o mesmo estilo, só que com muito humor. O nome? “Chicletes Políticos”.