A Aldeia

Tribuna do Norte. Natal, 26 jun. 2011
Gazeta do Oeste. Mossoró, 25 jun. 2011.
Jornal Metropolitano. Parnamirim, 02 jul. 2011.


Em 1967 o psicólogo canadense Marsshall McLuhan desenvolveu o seu tão falado conceito de “aldeia global”: o mundo se transformaria numa aldeia, como resultado da revolução tecnológica, principalmente nos setores das comunicações e transportes. McLuhan visualizou a sua aldeia global muito antes da existência da Internet, dos telefones móveis, da banalização da aviação de massa e quando o Brasil era uma espécie de ilha exótica, isolada do resto do mundo pela ditadura militar e pelas peculiaridades de nossa política econômica.

O nosso país só entrou na atual fase de globalização econômica na última década do século XX. Até o governo de José Sarney, vivíamos quase que segregados técnico e economicamente do resto do mundo. Não obstante o crescimento das exportações, nossas relações com os outros países revelavam-se reduzidas, pequenas e limitadas. As importações eram restritas a poucos itens e chegamos ao ponto máximo da insensatez quando foram proibidas as entradas de produtos de informática (hardware e software), isso para que os computadores, seus componentes e programas fossem desenvolvidos internamente. Estávamos desesperadamente tentando reinventar a roda.

Somente no governo Collor o Brasil se inseriu na atual onda da globalização, porém de maneira desordenada, sem planificação e sem se preocupar com os reflexos desestabilizadores que uma abertura econômica abrupta teria sobre o sistema produtivo nacional. O que se questiona é o quanto de acerto teve essa política de abrir o mercado interno, sem medir o risco que a importação descriminada e descontrolada traria para a indústria, para a agricultura e outros setores produtivos do país. Dando continuidade ao processo, o país adotou a globalização como filosofia econômica, durante o primeiro e o início do segundo governo de Fernando Henrique Cardoso, com todos os benefícios e riscos: livre entrada e saída de capitais, flutuação da moeda, livre importação de mercadorias etc.

Os meios de comunicação de massa vêm utilizando a palavra globalização nos mais variados sentidos e contextos. Os termos globalização, global, globalizante, mundialização, internacionalização etc. tornaram-se palavras com o poder de explicar os mais variados temas da atualidade. Mas, afinal de conta, o que é essa tão falada globalização? Segundo Jay Galbraith, a “globalização é um processo de integração mundial que está ocorrendo em todos os setores: de comunicação, economia, finanças, negócios, e está afetando indivíduos, empresas e nações. O principal fator da globalização para a administração [das empresas], é que altera os fundamentos sobre os quais a economia mundial se organizou” nos últimos 60 anos.

Embora pareça paradoxal ver as pessoas lutando por suas individualidades, cada um buscando sua identidade, sua cultura, sua impressão digital, mais respeito à sua privacidade, ao mesmo tempo em que o conceito de globalização se espalha por todos os campos. Talvez essa convivência paradoxal tenha origem na própria essência humana, que busca a concretização da ideia de um mundo sem fronteiras. O crescimento brutal da informática e das telecomunicações tem sido determinante para esse processo de integração da pluralidade humana. A queda das barreiras alfandegárias, a formação de blocos econômicos, a velocidade nas comunicações, as mudanças tecnológicas e o fluxo de capitais internacionais são as principais forças que estão alterando e moldando uma nova visão mundial.

Hoje, vive-se um momento de transformação equivalente ao ocorrido durante a Revolução Industrial, iniciada no século XVIII, com a diferença de que agora a velocidade das mudanças é muito maior. Embora não tão perceptível para todos, é interessante notar que o que ocorre no panorama mundial também ocorre no interior das empresas. Esse fato tem exigido uma grande transformação organizacional e por isso se tornou em um enorme desafio para muitas organizações que são, em muitos casos, incapazes de reinventar seus setores e refazer suas estratégias e táticas para enfrentar as novas situações; a nova conjuntura tecnológica, econômica e empresarial e, mais importante ainda, de enfrentar o fato de que seus concorrentes não são somente internos, mas do mundo todo. Nas sociedades que não encaram a realidade do novo tempo, os problemas de refazer a feição organizacional são proporcionais às suas crises, pois perdem o caminho e o trem do lucro,

Grandes empresas brasileiras fizeram o dever de casa e até mais, se internacio-nalizaram, como Grendene, Embraer, Gerdau, JBS-Friboi, Vale, Volcarás/Azaleia, Petrobras etc. Outras se fortaleceram internamente, para concorrer em pé de igualdade com suas concorrentes estrangeiras. Outras fecharam suas portas. O capitalismo não perdoa a ineficiência.