A democracia, as eleições e a cidade

Tomislav R. Femenick – Jornalista   Dentre os inúmeros presentes que recebemos dos gregos (falo dos presentes genuínos, e não do cavalo de Troia), a democracia talvez tenha sido o mais precioso. Mais »

Elefantes brancos no Elefante Potiguar

Tomislav R. Femenick – Jornalista   Partindo da premissa de que o nosso Estado é um dos menores e mais pobres do país, é lógico se pensar com parcimônia no que gastar Mais »

Os Monomotapas

Tomislav R. Femenick – Historiador e jornalista   O e-mail era lacônico: “O que sabe do gd Zimbábue?”. Respondi sucinto: “É assunto do meu livro Os Escravos”. Recebi de volta: “Então escreva Mais »

Reforma agrária é coisa capitalista

Tomislav R. Femenick – Contador, mestre em economia e historiador. Da janela da minha biblioteca, vejo a bela instalação predial que o INCRA desfruta em nossa capital. Também, a posse da terra Mais »

Usado em vão o nome de Cristo

Tomislav R. Femenick – Mestre em economia, com extensão em sociologia e história   Um caso que chegou ao TSE, pedindo a cassação do mandato de uma vereadora goiana, por ter praticado Mais »

A democracia, as eleições e a cidade

vinheta173

Tomislav R. Femenick – Jornalista

 

Dentre os inúmeros presentes que recebemos dos gregos (falo dos presentes genuínos, e não do cavalo de Troia), a democracia talvez tenha sido o mais precioso. Todavia, como muitas outras coisas – tais quais o ar e a água – é frequente não nos darmos conta de sua importância. A democracia é como a liberdade, a sua irmã siamesa; falamos muito sobre elas, porém só “sentimos” a sua importância quando as perdemos.

Como já deu para notar, o assunto de hoje é a democracia, explicitada nas eleições que se aproximam. Mas, afinal de contas, quem é essa senhora? Teórica e filosoficamente, a democracia (do grego: δῆμος”, povo; “κράτο”, poder) é o regime político em que todo o poder se origina do povo. Em nossa Constituição está dito: “Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente”. É lindo, não é?

Ela, a democracia, parece estar presente em todo o processo eleitoral, mas somente parece. Acontece que, no Brasil, os partidos políticos têm donos que se assenhoram da máquina e impõem sua vontade, prostituindo o conceito de democracia. Esses senhores fazem o que querem, escolhem os candidatos e a distribuição dos recursos do fundo partidário. E o povo? Ora, o povo! O povo é apenas massa de manobra desses senhores que transformam os partidos políticos em verdadeiros feudos, nos quais eles mandam e, mais que isso, desmandam.

As eleições que se aproximam são um exemplo clássico desse proceder. Para angariar votos, vale tudo, inclusive candidatos inexpressivos, sem plataforma nenhuma, mas que são simpáticos e possíveis puxadores de votos para reforçarem a votação das legendas. As redes sociais das quais participo dão um exemplo típico. Tenho recebido mensagens pedindo meu voto, oriundas de pessoas que conheço e, também, de outras que não conheço e de quem nunca ouvi falar. Tem de tudo. De pagodeiro a doutores, de intelectuais a gente do povo, de políticos profissionais a estreantes, dos que apresentam enredos de planos de ação aos que apelam para a excitação de sentimentos. No entanto, a grande maioria se apega a nomes como Bolsonaro ou Lula.

O que esses senhores e senhoras se esquecem é de que as próximas eleições têm caráter municipal, têm a ver com o cotidiano da cidade em que moramos; aqui, no nosso caso, a cidade de Natal, uma urbe cheia de problemas que nunca são resolvidos, dos mais simples aos mais sérios. Por exemplo: quase ninguém fala do nosso eterno problema de saneamento básico, do desmantelo que é o transporte público, da desatualização do Plano Diretor que engessou o desenvolvimento urbano. Há, dirão, mas esses são problemas que exigem grandes recursos ou grandes trabalhos. Sim, no entanto é para resolver grandes problemas que existem prefeitos e vereadores. Os pequenos, os funcionários burocráticos resolvem sozinhos.

O que falta é vontade política para resolvê-los, inclusive os pequenos assuntos controversos. Quer exemplos? Temos aos montões. Entram e saem governantes e ninguém resolve a questão da numeração das edificações de nossas ruas, avenidas e praças. Localizar um número é enfrentar uma loucura organizada. Em alguns logradores, não há um segmento lógico, há repetição de números, um número alto é seguido de um número baixo e assim por diante. Para completar a loucura, a maioria das ruas não têm placas nos cruzamentos.

Outra loucura é a altura das calçadas. Saindo dos bairros centrais, encontramos calçadas de todas alturas, umas baixas e outras altas, umas seguidas das outras. Completam o quadro da desordem os rebaixamentos ou as elevações para as entradas dos carros. As pessoas, principalmente as com deficiência de locomoção, que se lixem.

Não vi nem ouvi nenhum candidato falar nesses problemas; são pequenos demais para eles se envolverem. O foco deles é se apresentarem como simpáticos ou seguidores dessa ou daquela corrente, de direita ou de esquerda. A maioria pensa apenas em se dar bem.

Elefantes brancos no Elefante Potiguar

vinheta173

Tomislav R. Femenick – Jornalista

 

Partindo da premissa de que o nosso Estado é um dos menores e mais pobres do país, é lógico se pensar com parcimônia no que gastar os parcos recursos de que dispomos. Mais lógico ainda é que se empreguem nossas pobres riquezas em projetos que gerem bem-estar para a população e que possam alavancar nossa renda, através de aumento da produção agropecuária, extrativista, industrial, comercial e de prestação de serviços.

Entretanto, a realidade não é bem assim. Entram governos, saem governos, e o que impera é a construção de “elefantes brancos” que consomem nossos impostos em obras faraônicas e sem serventia, ou, quando muito são empreendimentos que usam apenas parte de suas respectivas capacidades produtivas ou de geração de conforto para nós potiguares. Vejamos alguns exemplos.

O caso exemplar é o Aeroporto Aluízio Alves, localizado em São Gonçalo do Amarante, e que tinha por mote servir a população da região metropolitana de Natal e, por extensão, de todo o Estado. Tudo indicava que fosse mais do que uma superfície terrestre dotada de pista, prédios e equipamentos necessários ao embarque e desembarque de passageiros e cargas; fosse mais que um simples aeródromo. Uma série de fatores apontava esse “algo mais”. Tem a localização privilegiada e a tendência mundial das empresas aéreas de adotarem para suas rotas a logística conhecida como “hub-and-spoke”, usando um aeroporto como ponto de conexões de suas rotas. Não foi o que aconteceu. O aeroporto de Recife, e não o nosso, assumiu este posto. Restaram-nos as agruras de um aeroporto longe, que exigiu investimentos em estradas de acesso. E lá se foram mais gastos públicos.

Outro “nó górdio” foi a Ponte Newton Navarro, necessária como nova ligação do centro à zona norte da capital, já que a ponte de Igapó estava saturada. O problema é que a nova ponte é baixa e não permite a passagem dos grandes transatlânticos. Mesmo assim, o porto de Natal foi dragado e foi construído um moderno e caro Terminal de Passageiros, que custou R$ 74 milhões, até hoje só parcialmente utilizado, quando o é. Por falar no Porto, há também há um terminal pesqueiro, no qual foram investidos R$ 28,1 milhões, cuja situação atual de uso é de “estudo”.

Agora vem o “crème de la crème”, a imponente Arena das Dunas, erguida para a Copa de 2014. São 77.783,50 m² de área construída, que ocupa um terreno de 114.063 m² e tem capacidade para 31.375 pessoas, com custo de ‎R$ 423 milhões. Imponente e belo, ocupa o espaço em que antes existia o recém reformado Estádio João Machado. O problema é outro: um belo palácio que realça a precariedade do futebol potiguar. Os dois principais clubes do Estado, o América e o ABC, patinam, quando muito, entre a série “D” e “C”. Traduzindo a situação: é como se os pobres de Paris visitassem o Palácio de Versalhes.

Para driblar a escassez de futebol, a Arena se transformou em espaço multiuso. Lá são realizados shows musicais, espetáculos circenses, quadrilhas juninas e o escambau. Mesmo assim, a operação é deficitária. Sabe quem cobre o rombo? O Erário do governo do Rio Grande do Norte. Um estudo da Controladoria Geral do Estado calcula que nós, o povo potiguar (através do governo do Estado, que usa os nossos impostos para isso), já pagamos à OAS, construtora e operadora da Arena das Dunas, a bagatela de R$ 707 milhões.

Enquanto isso, o Estado está inadimplente com seus funcionários. Há duas folhas de salários atrasadas há cerca de dois anos e sem previsão de quitação. Falta dinheiro para a gasolina dos veículos da saúde e da segurança pública. Nas unidades regulares de saúde falta tudo; algodão, gases, mertiolate. Nas escolas (agora fechadas) há necessidades de reformas, faltam giz, cadernos, livros e lápis. Na Secretaria de Segurança faltam pessoal, coletes à prova de balas, armamento moderno e até a munição é regrada.

A primeira obrigação de qualquer governo é fazer seu povo feliz, não iludido. O Aeroporto de São Gonçalo enchouriçou a vida dos passageiros; a ponte Newton Navarro (por não telas de proteção), virou ponto de suicídios; a Arena virou apenas dunas.

Tribuna do Norte. Natal, 27 set. 2020

Os Monomotapas

vinheta176

Tomislav R. FemenickHistoriador e jornalista

 

O e-mail era lacônico: “O que sabe do gd Zimbábue?”. Respondi sucinto: “É assunto do meu livro Os Escravos”. Recebi de volta: “Então escreva um artigo”. Aqui está ele:

Entre os anos 300 e 850 d.C. povos chonas (shonas), vindos de terras próximas ao lago Taganica, chegaram à região onde hoje se localizam as repúblicas de Zimbábue, Zâmbia e Malaui. Anos depois, iniciaram as primeiras edificações de pedra que integram um dos mais intrigantes monumentos da história da raça negra e uma das maiores e mais notáveis construções da Idade do Ferro: o “Grande Zimbábue”. Os primeiros prédios teriam sido erigidos por volta do ano 1100 e as grandes muralhas entre os anos 1350 e 1400. Esse conjunto (e outros de menor grandeza) localiza-se entre os rios Zambeze e Limpopo, em um platô com altitude que vai de mil a dois mil metros.

Hoje o Grande Zimbábue é reconhecidamente um dos mais importantes sítios arqueológicos da África Negra. Acredita-se que tenha sido a corte real e um centro de rituais religiosos. É uma construção feita com pedras de tamanho quase igual, que se encaixam de maneira precisa e uniforme, em fileiras contínuas e curvilíneas, sem qualquer argamassa para fixação. Na parte superior da muralha há várias torres circulares, algumas medindo até quatro metros de altura, separadas por intervalos iguais, com desenhos decorativos em monólitos de granito ou de pedra-sabão. No seu interior há outros muros menores.

Ao serem redescobertas, em 1905, alguns estudiosos elaboraram a teoria de que eram realizações de um povo perdido ou teriam sido os árabes que haviam projetado as grandes construções de pedra. Hoje não há dúvidas; esta é uma realização dos chonas.

No princípio do século XV, eles se tornaram um império, conhecido como Monomotapa (ou Monomopata); como os portugueses o denominaram. Esse Estado emergiu de um processo de competição entre pequenos reinos antes existentes e, também, como resultado de um conjunto de condições econômicas objetivas, que tinham como fim controlar a produção de ouro.

A atividade econômica mais comum entre os povos da Grande Zimbábue era a criação de bovinos e a agricultura. Como as suas terras não eram propícias à formação de pastagens durante todo o ano, desenvolveram o sistema de transumância, deslocando o gado da planície para o planalto, na estação de seca, e do planalto para a planície, nas estações chuvosas. Dedicavam-se, também, à metalurgia de ouro, à extração de pedras preciosas, à mineração de ferro, estanho e cobre, bem como ao comércio de marfim e escravos. Seus mercados eram o Egito, outros países africanos, a China e, possivelmente, a Índia.

Em meados e até perto do final do século XV, o Império atingiu o seu apogeu. Foi nesse período que Vasco da Gama aportou na ilha de Moçambique, então um enclave árabe na terra dos chonas. Os relatos de seus diários de bordo fazem referência à riqueza e cultura desse povo da costa oriental africana. Antes de partir, o navegador luso mandou bombardear a cidade. Na sua chegada a Lisboa, recebe “honrarias e mercês”, entre outros motivos por ter localizado as minas de ouro dos monomotapas.

Em 1501, Pedro Alvares Cabral, de regresso das Índias (para onde foi após ter descoberto o Brasil), enviou um emissário à “terra do ouro”, objetivando trocar tecidos de algodão e miçangas pelo metal precioso. No ano seguinte Vasco da Gama voltou à região e iniciou os estudos para a construção de uma fortaleza e uma feitoria.

O mito, a verdade, o simbolismo e o fascínio do ouro dos monomotapas, contagiaram muitos europeus. Até Luís de Camões, em seu grandiloquentíssimo poema laudatório dos feitos e conquistas portuguesas, baseado em viagem que Vasco da Gama empreendeu à Índia, caiu pelo encanto desse ouro. Sofala é citada em pelo menos três vezes. “…as ondas navegamos, de Quíloa, de Mumbaça e Sofala […], donde a rica Sofala o ouro manda […]. Olha a casa dos negros […], qual bando espesso e negro de estorninhos, combaterá em Sofala a fortaleza Nhaia com destreza” (Os Lusíadas; Primeiro Canto, verso 54; Quinto Canto, verso 73, e Décimo Canto, verso 94, respectivamente).

 

Tribuna do Norte. Natal, 11 set. 2020.

 

Reforma agrária é coisa capitalista

vinheta172

Tomislav R. Femenick – Contador, mestre em economia e historiador.

Da janela da minha biblioteca, vejo a bela instalação predial que o INCRA desfruta em nossa capital. Também, a posse da terra é um problemão que parece sem solução.

Antes de Cabral aportar por estas plagas, os nativos, ou melhor dizendo, as tribos indígenas, disputavam e defendiam um lugar com flechas e tacapes. Mas era uma posse temporária, até que eles resolvessem se mudar para outras regiões. Então aconteciam novas lutas. Com a efetiva colonização, cerca de trinta anos depois do descobrimento, a coroa portuguesa tomou toda a terra para si e a redistribuiu entre fidalgos e amigos do rei, através das edições das Capitanias Hereditárias (de curta duração) e das cartas de sesmarias, instituto que fazia a dação de terrenos aos novos povoadores. A questão era encontrar quem cultivasse essas terras, quem efetivamente trabalhasse. Escravizaram os índios e depois trouxeram africanos apresados e feitos escravos. Criou-se, então, uma dicotomia que premiou todo o período colonial, sobreviveu ao Império e à República, agravando-se no século XX, e perdura até os dias de hoje: quem trabalhava a terra não era dono dela; quem era dono não trabalhava.

Revoltas contra essa situação sempre houve. Os índios escapavam para as matas, os escravos fugiam e criavam quilombos, e os colonos, trazidos da Europa para trabalhar nos engenhos de cana, fazendas café e outras culturas, terminavam indo para as cidades, onde se tornavam artesãos, operários e pequenos empreendedores.

Em meados do século passado, a questão fundiária assumiu novas proporções. A luta pela reforma agrária tomou nova forma em 1946, quando, sob orientação do antigo PCB, foram criadas as Ligas Camponesas. Postas na ilegalidade, ressurgiram em 1954, lideradas por Francisco Julião. No governo militar de 1964, a organização foi novamente posta na clandestinidade e muitos de seus dirigentes foram presos. Porém o problema fundiário permaneceu e, em 1984, foi organizado o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, o MST, que contou com o decisivo apoio da Comissão Pastoral da Terra, da Igreja Católica.

O problema do MST é que as questões políticas suplantam o motivo de sua origem. Prega a luta de classe, desvia recursos recebidos do governo, através de cooperativas que são por ele controladas, cobra taxas dos assentados e a eles impõe procedimentos e ações. Quem se recua é afastado ou excluído de qualquer benefício. Além desses comportamentos, não diretamente ligados à reforma agrária, entre suas lideranças há sérias lutas simplesmente pelo poder. Exemplo: sob forte controle de João Pedro Stédile, o MST afastou de sua direção uma das suas figuras de destaque, José Rainha Júnior, líder do movimento no Pontal do Paranapanema, no Estado de São Paulo, e provocou o desligamento de Bruno Maranhão, que fundou uma dissidência: o Movimento pela Libertação dos Sem Terra – MLST.

A posse da terra por quem nela trabalha deixou de ser o foco primeiro do MST e movimentos correlatos. As convocações para as ocupações rurais visam recrutar o maior número de pessoas, não interessando quem seja. Juntam no mesmo barco verdadeiros trabalhadores rurais, trabalhadores rurais desempregados e mais toda espécie de gente; gente que sempre morou na cidade, donos de pequenos negócios, políticos profissionais, sejam quem sejam. O importante é que formem um grande ajuntamento, pois a luta política tomou destaque no cenário da reforma agrária, sempre socialista, sempre anticapitalista. Qualquer reivindicação social faz com que suas lideranças mobilizem as bases e usem os “sem terra” como massa de manobra. Analisando o panorama, chega-se à inevitavelmente conclusão de que há desvirtuamento na luta pela reforma agrária no Brasil. Desce a terra; sobe o socialismo.

Será que ninguém ver o contrassenso: a reforma agrária verdadeira defende a PROPRIEDADE PRIVADA da terra para quem nela trabalha; PROPRIEDADE PRIVADA individual de meios de produção não existe no socialismo. Isso é coisa do capitalismo.

Tribuna do Norte. Natal, 04 set. 2020

Usado em vão o nome de Cristo

vinheta172

Tomislav R. FemenickMestre em economia, com extensão em sociologia e história

 

Um caso que chegou ao TSE, pedindo a cassação do mandato de uma vereadora goiana, por ter praticado abuso de poder religioso durante a campanha, trouxe à discussão a não tão estranha relação das religiões com o poder. Basta lembrar que, desde as mais antigas civilizações, há uma simbiose entre as partes, da qual ambas tiram proveito. Foi assim na Mesopotâmia, no Egito, na China, na Índia, na América pré-colombiana e nas tribos da Terra Brasilis.

Entretanto, foi na Idade Média e nos anos que lhe seguiram que essa situação aflorou, dando lugar a inúmeras crises religiosas. Considere-se que o homem europeu típico dessa época era um místico por excelência, que “reduzia à religião tudo quanto concernia às condições de vida, quer fossem políticas e materiais, quer morais” (CORVISIER, s.d.).

Nesse período histórico, a Igreja Católica tinha enorme poder temporal. Se uma parte considerável do clero se preocupava com a vida espiritual e declarava votos de pobreza, uma outra se dedicava inteiramente às lides mundanas. A igreja era uma grande proprietária de bens materiais, o Papa era um príncipe que tinha exércitos e dirigia pessoalmente suas guerras; e reinava sobre os reis.

O ponto inicial do movimento contra a presença da Igreja na vida temporal foram as obras de Erasmo de Rotterdam, principalmente seu livro “Elogio da Loucura”, editado em 1511, onde dizia: “Sua Santidade glorificada possui terras, cidades, domínios e recebe impostos e taxas. E é sobretudo para defender e conservar essa rica aquisição que os pontífices romanos costumam condenar as almas (…) e, sem piedade, empregam o ferro e o fogo para sustentar as suas razões” (ROTTERDAM, 1971). Todavia, sua obra crítica foi mais além e condenou o comportamento da sociedade como um todo. Erasmo, que era filho de um padre, foi ele mesmo padre, secretário de bispo, professor particular e reitor; rejeitou ser cardeal. Apesar de criticar a Igreja, ele não deu seu apoio aos reformistas; na sua opinião bárbaros e fanáticos.

Os movimentos de confrontação com o poder da igreja viriam principalmente com Lutero, Calvino e a Igreja Anglicana, todos eles desposando ideias coincidentes com o pensamento de Erasmo.

Martinho Lutero, padre e doutor em teologia, iniciou o seu confronto com Roma, em 1517. Suas pregações visavam a criação de uma igreja nacional, autônoma, a supressão do celibato, do luxo e da usura. Advogava a manutenção da hierarquia social e eclesiástica. O movimento progrediu nos Estados alemães, conquistou a Suécia, a Dinamarca e parte da Suíça, e penetrou na Boêmia, na Hungria, na Transilvânia e na Lituânia. Porém o movimento se subdividiu, aparecendo as correntes dos “sacramentários”, “anabatistas” e “menonitas”.

Calvino (Jean Calvin), francês e doutor em Direito, deu início ao seu movimento em Genebra, na Suíça, em 1541. Para ele, o destino de cada pessoa era previamente traçado por Deus. A riqueza seria uma dessas demonstrações. E quanto maior fosse a riqueza maior a graça divina. Suas ideias se propagaram nos Países-Baixos, na Alemanha renana, na Boêmia, na Hungria, na Polônia, na Inglaterra e na Escócia. Entretanto, seu campo mais fértil foi a França.

A reforma inglesa teve várias facetas. A Igreja Católica, além de possuir grandes domínios, impunha à Inglaterra um pesado imposto, o anatas. Apesar disso, a reforma luterana não encontrou ali apoio expressivo. As constantes mudanças de orientação religiosa do reino só se estabilizam em 1563, com a adoção pela Igreja Anglicana de uma hierarquia e culto de aparência católica e um dogma próximo ao calvinismo.

Uma das características da época foi a intolerância religiosa. Todos perseguiam e matavam seus contestadores. E não nos esquecemos da Inquisição. E todos usavam em vão o nome de Cristo. Que isso nos sirva de exemplo a não ser seguido.

 Tribuna do Norte. Natal, 26 ago. 2020

Caatinga, o nosso bioma

vinheta173

Tomislav R. Femenick – Mestre em economia

 

O termo bioma identifica o conjunto das condições ecológicas de uma determinada região, com paisagem e diversidade próprias de flora e fauna. O Brasil tem seis biomas diferentes:  o Amazônia (o maior de todos), o Pantanal, o Cerrado, o Pampa, a Mata Atlântica e a Caatinga. Este último é o que nos interessa.

A caatinga (do tupi-guarani: caa, planta + tinga, branco, cinzento claro = planta cinzenta) se faz presente em toda região semiárida (que tem precipitação pluviométrica inferior a 1000 mm/ano) do Nordeste brasileiro; aí incluídos os Estados do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Bahia, bem como o norte de Minas Gerais. É o único bioma existente somente em nosso país. Em nenhum outro lugar do mundo há o seu conjunto de características.

Em alguns trabalhos acadêmicos, e outros de agências governamentais, há uma tentativa de identificar a caatinga brasileira com a “savana-estépica”, um tipo de vegetação existente no Norte do continente africano e, também, na Península Arábica. Esse termo foi criado pelo naturalista francês J. L. Trochain em seu trabalho “Nomenclature et classification des milieux vegetaux en Afrique noire française” (Paris: Annés de Biologie, 1955).

O bioma da caatinga é diferente, tem um tipo peculiar de vegetação, comumente formada por arbustos de pequena altura, espinhosa e com aparência lenhosa, que perde as folhas no curso das estações secas. Quando há, as folhas são pequenas. As arvores têm grande ramificação desde a parte inferior dos troncos, o que lhes dá uma aparência arbustiva, frequentemente espinhenta. Cactos, bromeliáceas e outras xerófilas ocorrem de forma paralela, dando lugar a uma paisagem de grande contraste entre as épocas secas e as chuvosas. Ali se tem o pereiro, o faveleiro, a baraúna, a aroeira, o angico, a quixabeira, a oiticica, o juazeiro, o pau-ferro, o mandacaru, o facheiro, o xiquexique, a coroa-de-frade, a macambira e a palma. No meio dessa aridez, rondando as várzeas do rio, dos riachos, das lagoas ou nas proximidades dos açudes, vez por outra, desponta um ipê, o pau-d’arco, roxo ou amarelo, que vem quebrar a monotonia das cores pálidas.

A Caatinga é a floração característica e natural da maior parte do Rio Grande do Norte que, nesse cenário vegetal, conta com a presença da carnaubeira, uma planta que lhe é natural, e dela falei em artigo recente. Imponente e esbelta, ela faz parte do cenário físico e afetivo dos habitantes da terra. Os carnaubais nativos ocorrem mais acentuadamente nos vales dos rios e riachos que cortam a região da caatinga, pois a planta tem preferência por solos argilosos e aluviais, embora resista a elevado teor de salinidade e a longos períodos não chuvosos. Sua presença na caatinga ribeirinha do rio Mossoró (Lins & Andrade, 1960) cria como que um corredor de folhas verde vivo em um palco de cores tênues.

Segundo um Relatório Técnico do Serviço Florestal Nacional, a Caatinga (no documento chamada de Savana-Estépica) representa cerca de 91% das áreas de florestas do RN (cerca de 20.000 Km2). Para se ter um comparativo da devastação da caatinga potiguar, até bem pouco tempo, o Município de Mossoró possuía 21,10 Km2 de área de catinga, dos quais, 9,5 km2 já foram devastados.

Em algumas regiões do Estado existem variações de tipos vegetais. A Chapada do Apodi, que abriga os Municípios de Felipe Guerra, Apodi, Governador Dix-Sept Rosado e Caraúbas, integra a bacia hidrográfica do rio Apodi-Mossoró. Contraditoriamente, ela apresenta espécies vegetais de baixos, formando uma caatinga arbórea-arbustiva, lenhosa, cujo caule emite ramificações muito próximas do solo, típicos de regiões baixas e abertas,

A vida estéril na caatinga foi magnificamente retratada por Graciliano Ramos, em seu famoso romance “Vidas Secas”. Por sua vez, Euclides da Cunha, em “Os Sertões”, embora a tenha chamada de “terra ignota”, indeterminado, ignorada, reconhece que seu habitante natural, o sertanejo, “é antes de tudo um forte”.

Tribuna do Norte. Natal, 14 ago. 2020

Do Éden ao coronavírus

vinheta173

Tomislav R. Femenick – Jornalista

No começo era o nada. Depois fez-se a luz e o universo. E nele, o nosso planeta, o sol, a lua, os cometas e as estrelas. Mas Deus queria mais, criou a terra, a água, o fogo e o vento; criou o dia e a noite. E, para coroar sua criação, criou o homem à sua imagem e semelhança. Mas era insuficiente. Criou a mulher e os colocou para morar no Éden. É pouco: não ter que trabalhar, morar no Paraíso sem ter que pagar IPTU nem taxa de condomínio e, além de tudo, ser casado e não ter sogra. É… o ser humano era o centro de todo o universo; uma espécie de antropocentrismo capenga, uma velada contraposição ao teocentrismo, que sempre põe Deus no lugar supremo. Essa é a história contada por várias religiões, para explicar a criação do cosmos e do ser humano.

O primeiro percalço foi aquele da cobra e da maçã. Pura sacanagem. A cobra levou Eva na conversa e essa sussurrou baixinho no cangote de Adão e deu no que deu: foram defenestrados e o jardim do Éden ficou guardado por querubins, armados com espadas flamejantes.

Mesmo despejado e tendo que trabalhar para ganhar o seu sustento, o homem continuava no centro de tudo, pois a sua casa natural, o planeta Terra, ficava no centro do Universo e em seu entorno giravam todos os outros corpos celestes. Aristóteles e Ptolomeu – o primeiro um dos maiores filósofos, e o segundo o maior astrônomo de então – estavam aí para garantir essa firme posição, o geocentrismo, aceito e sacramentado pela Igreja de Roma.

Estava tudo bem assentado e aceito, até que no século XVI o castelo começou a cair.  Galileu Galilei (um físico, matemático, astrônomo e filósofo italiano) e Nicolau Copérnico (um cônego da Igreja Católica, astrônomo, matemático, administrador, jurista e médico polonês) desenvolveram, paralelamente, a teoria heliocêntrica, isso é, de que o sol é que era o centro de tudo. O geocentrismo cedia o lugar ao heliocentrismo, agora com resistência da igreja. Todas essas teorias tinham duas coisas em comum: a primeira, explícita, a concepção fechada e finita do Universo; e a segunda, implícita, a relevância do ser humano.

Esse “estado da ciência” permaneceu por um bom tempo, com pequenas diferenças de entendimento, até que estourou a bomba: o sol é apenas uma estrela de quinta categoria, e como a Terra, há outros sete planetas: Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter, Saturno, Urano e Netuno; além de “Plutão que já foi planeta”, mas foi excluído. Quando a humanidade começou a se acostumar com o seu rebaixamento de categoria, outra bomba explodiu: o sistema solar inteiro é apenas um pequeno ponto na periferia da nossa Galáxia, a Via Láctea. O sol é apenas uma das cem bilhões de nebulosas, aglomerados, estrelas, poeira e gás do sistema galáctico.

Eita porrada certeira na moleira do ser criado à imagem e semelhança de Deus; agora reduzido a pó de titica de pulga de barata; a insignificância absoluta. Um detalhe a mais, existem bilhões de galáxias no Universo.

Depois de humilhado no sentido macro e esmagado pela grandeza do Universo, finito ou não (mas essa é outra conversa), agora a raça humana está sendo desafiada e devorada por um ser minúsculo, pequenininho, invisível a olho nu, o novo coronavírus. Somente microscópios potentes, como o existente no Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), do Rio de Janeiro, mostram, em detalhe, a configuração do vírus e o momento exato em que uma célula é infectada pelo novo coveiro da humanidade. O estrago tem sido feio. Dezenas de milhares de pessoas morrem todos os dias, infectadas pelo “maledetto”, a economia do mundo está em frangalhos, a qualidade e o nível de vida dos mais pobres está em declínio crescente.

Enquanto isso, muitos se julgam infectáveis pelo vírus, igual àquele desembargador lá de São Paulo. O pior é que esses intocáveis colocam em risco a vida das outras pessoas com quem convivem – e até a de quem eles nem conhecem.

Tribuna do Norte. Natal, 05 ago. 2020.

A carnaubeira

vinheta172

Tomislav R. FemenickJornalista

 

Em uma das minhas últimas idas ao oeste potiguar, deparei-me com uma visão, para mim, inusitada: na estrada, três caminhões transportavam troncos serrados de carnaubeiras. Até os anos 1960, as várzeas dos rios Açu e Apodi eram naturalmente embelezadas pelas gigantescas carnaubeiras e seu cultivo era uma atividade rendosa. As palhas da planta forneciam o pó valioso que gerava riquezas, que alimentava famílias inteiras e que faziam os proprietários ainda mais orgulhosos daquela beleza rentável. Isso foi durante o ciclo da carnaúba; sua época áurea.

Uma vez “apurado” (processo de separação do pó, que existe nas folhas da árvore), aquele pó se transformava em cera, que era exportada para a Europa e para os Estados Unidos, onde tinha o mais variado uso industrial como matéria-prima básica ou adicionada. No Brasil a cera de carnaúba também era usada em larga escala, inclusive nos discos musicais.

Não era somente a cera que gerava emprego, que tinha utilidade. A palha da carnaubeira servia como matéria prima em profissão artesanal das mais curiosas. Dela se ocupavam famílias inteiras no fabrico de esteiras, chapéus, bolsas, sacolas (urus), peneiras (urupemas) e vassouras. Nas fazendas era utilizada no aparelhamento de cangalhas e em coberturas de residências; nas salinas, na construção de baldes de solidificação do sal. Na época em que os carnaubais perdiam parte da sua beleza com a corte de palhas, ganhavam os proprietários com a venda dos produtos. Era a riqueza em marcha.

A percentagem do lucro nessas transações era alta, o que fazia crescer o interesse pelos carnaubais. Todos ganhavam: os proprietários, os trabalhadores, os agentes compradores, as firmas exportadoras e o governo, este com os impostos.

Acontece que muitos fatores conspiraram contra essa riqueza natural. Os imensos carnaubais do Rio Grande do Norte, antes elementos de beleza telúrica e produtores de riquezas, tiveram seus dias contados, como fatores econômicos. Suas palhas, seu pó, já não mais têm a procura de antes. A ciência descobriu produtos sintéticos que tomaram seu lugar. Já não mais se vê o trabalho exaustivo de homens a cortar e juntar a palha rica, a apurar o pó gerador de riquezas. Famílias já não mais se ocupam do artesanato da tecelagem de palhas.

As despesas com o corte dos carnaubais e cozimento do pó aumentaram em escala nunca esperada. Os mercados interno e externo diminuíram o consumo. A oferta de cera excedeu a procura, e as vendas dos produtos de artesanatos estavam longe de cobrir as despesas básicas de todo o processo produtivo.

Dos carnaubais saía apenas uma pequena percentagem de palha e cera. Uma tênue lembrança daquilo que foi uma atividade altamente lucrativa. Foi preciso parar para evitar prejuízos maiores. Foi o início do fim da economia da cera de carnaúba.

Diante destes fatores adversos, os produtores de cera foram perdendo interesse e, pouco a pouco, os imensos carnaubais ficaram esquecidos e isolados em sua solidão. Continuam apenas como beleza nativa.

No Rio Grande do Norte, especialmente, a atividade carnaubeira enquadrou-se no quadro de ocupações deficitárias. As despesas crescentes e a pouca comercialização do produto deixavam ocioso por muito tempo o capital empregado. Além do mais, com a demora de comercialização, a cera perdia peso, aumentando o prejuízo.

O resultado foi o abandono dos carnaubais, que estão condenados à extinção, quando muitos proprietários já iniciaram sua derrubada e a consequente “operação arranca do toco”, a fim de desocupar as terras para outros cultivos.

Tribuna do Norte. Natal, 26 jul. 2020.

 Hoje a carnaubeira é simples madeira para construção; como vi naquela carga dos três caminhões.

Colhendo lírios nos campos do Senhor

vinheta173

Tomislav R. FemenickJornalista

 

Apesar de alguns acontecimentos tristes (a guerra fria, a guerra mais do que quente do Vietnã, os assassinatos de Kennedy e Martin Luther King, por exemplo), a década de sessenta do século passado talvez tenham sido os melhores anos da história recente. Os estudantes e os movimentos negros e feministas lutavam por direitos justos, que lhes eram negados, as ciências deram um tremendo avanço qualitativo e quantitativo. Iuri Gagarin, um astronauta russo, descobriu que “a terra é azul”. E um outro, norte-americano, Neil Armstrong, pisou na lua dando “um pequeno passo para um homem, um gigante salto para a humanidade”. O homem desceu ao piso dos oceanos, desenvolveu as bases da mecatrônica e do raio laser, descobriu a pílula anticoncepcional e sintetizou o DNA, entre outras grandes facetas.

Elvis, os Beatles, os Rolling Stones e o festival de Woodstock – e lá estavam Jimmy Hendrix e Janis Joplin – puseram a música popular de ponta cabeça. No Brasil, Chacrinha se comunicava com as massas, Roberto Carlos liderava a Jovem Guarda, a Bossa Nova se consolidava, a Tropicália (de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Rogério Duprat e Torquato Neto) e os velhos e os Novos Baianos renovavam o cenário musical brasileiro. A música que antes era só para se ouvir e dançar, agora mexia com o corpo e com a mente.

Enquanto isso, aqui a província continuava quase que totalmente provinciana. Câmara Cascudo, Veríssimo de Melo e uns poucos mais eram a exceção que confirmava a regra. Ponta Negra era uma praia longínqua (não havia a avenida Roberto Freire e a Via Costeira), habitada principalmente por pescadores. As praias do Meio, dos Artistas e Areia Preta eram os lugares de encontro da juventude adoradora do sol e das ondas.

O Grande Ponto – onde tudo acontecia ou onde tudo era comentado – funcionava a todo vapor, Aluízio Alves trazia inovações em seu governo, mas a política de compadrio ainda imperava, a televisão era um sonho, os cines Rio Grande e o Rex eram os centros de diversões e na Confeitaria Cirne, ali na rua João Pessoa, tomavam-se umas “estupidamente geladas”, enquanto se jogava conversa fora. No “high society” tupiniquim imperavam o América e Aero Club.

Foi nesse ambiente que apareceram dois nomes no jornalismo natalense. Paulo Macedo, no Diário de Natal, e Jota Epifânio, na Tribuna do Norte. Eles dominavam a sociedade local, noticiando o que era importante e ditando o comportamento da alta cúpula da cidade. O meu amigo Jota Epifânio faleceu em 1999 e o meu amigo Paulo Macedo, na semana passada.

Conheci Isaac Faheina de Paulo Macedo no final dos anos 1950, porém somente firmei amizade com ele na década seguinte, quando ambos trabalhávamos no Diário de Natal; ele como cronista social e eu como repórter correspondente. Nessa época ele tinha duas atuações marcantes: a Festa das Personalidades e os concursos de Miss Rio Grande do Norte, ambas realizadas anualmente. Com a evolução dos tempos, sua coluna foi se afastando dos assuntos sociais e, mais e mais, tratando de política, do mundo empresarial e, principalmente, de cultura. Tinha uma perspicácia notável para descobrir fatos novos ou para dar nova luz a assuntos latentes. Assim, foi se distanciando do pouco relevo da crônica tão somente social e adentrando por campos mais sólidos do jornalismo. Paralelamente, começou a estudar e a publicar matérias sobre automobilismo.

Como não poderia deixar de ser, ocupou cargos na administração pública. Foi chefe de gabinete do prefeito Djalma Maranhão, secretário de turismo da Prefeitura de Natal e presidente da Fundação José Augusto. Integrava o Conselho de Cultura do Estado e era membro da Academia Norte-Riograndense de Letras, onde ocupava o cargo de vice-presidente, e compunha o Conselho Estadual de Cultura. Apresentava um programa de televisão, Sala Vip, e publicou vários livros.

Fui seu companheiro no Rotary Club de Natal Sul, para onde fui por ele levado há mais de quinze anos. Tanto no clube a que pertencíamos, como na governadoria do Distrito (que engloba o Rio grande do Norte, a Paraíba e Pernambuco), seu nome era referenciado como um dos grandes possuidores de um cabedal de conhecimento sobre a filosofia rotária; sua lógica, suas regras, seus regimentos.

Paulo Macedo era, o que se poderia dizer, um homem de fino trato. Voz mansa, nunca se alterava. Falava de coisas relevantes e fugia de assuntos constrangedores. Nunca o vi destratar ou mesmo falar com reticências sobre alguém.

Desde o fechamento do Diário de Natal e de O Jornal de Hoje, em Natal, e da Gazeta do Oeste e O Mossoroense, em Mossoró, Paulo Macedo mostrava preocupação com as perdas que isso significava para o nosso Estado. Um povo que não lê não tem intelecto, não tem saber, não tem alma. E o jornal (notadamente o impresso) é a porta de entrada para isso, pois noticia e explica – principalmente explica – os fatos, os atos e as ocorrências.

Era assim o meu querido amigo Paulo Macedo. Teria muito mais a dizer sobre ele, mas, abalado pelo seu falecimento, somente soube dizer pouco desse pequeno grande homem, que agora está colhendo lírios nos campos do Senhor.

Tribuna do Norte. Natal, 18 jul. 2020.

Racismo no Brasil

vinheta172

Tomislav R. Femenick – Historiador

 

Ao me devotar à pesquisa sobre a escravidão, dediquei-me simultaneamente ao estudo do problema do racismo e do preconceito, duas pragas que contaminam todas as etnias, todas as nações e todos os povos. Problema que se torna maior quando maior seja o grau dessas deformações de caráter. Racismo é pensar que há superioridades biológica, cultural ou moral de determinado povo ou grupo social sobre outros. Geralmente é mais acentuado quando baseado na cor da pele. Já o preconceito é uma ideia preconcebida, carregada de intolerância, ódio ou aversão a outras raças, credos, religiões etc. Esse último é o caso dos intocáveis (dalit), os párias da Índia.

As lutas entre nativos americanos e africanos têm como pano de fundo uma espécie peculiar de racismo. Porém, nem só nas nações não evoluídas isso aconteceu e acontece. Nas civilizações que foram berços do processo civilizatório isso também ocorreu. Na Grécia antiga, todo estrangeiro era discriminado e taxado de bárbaro. A própria palavra “bárbaro” é de origem grega (βάρβαρος). O mesmo fenômeno aconteceu na Roma antiga. Quem não era romano era chamado de bárbaro.

O tráfico de escravos africanos para o continente americano evidenciou outros aspectos do racismo. Não se pode ignorar “o fato óbvio de que uma raça não pode escravizar sistematicamente membros de outras, em grande escala, por mais de três séculos, sem adquirir um sentimento, consciente ou não, de superioridade racial” (BOXER, 1977). Escravidão e racismo tiveram entre si uma relação em que um fato era, em parte, um reflexo do outro. Há três principais tipos básicos de racismo: a) o apartheid, segregação racial violenta, caso típico da África do Sul até 1994; b) a supremacia branca, dos Estados Unidos, que foi legalmente banida em meados do século passado, mas que permanece subjacente em alguns setores da sociedade, e c) o dissimulado, o mais comum em nosso país.

No Brasil, abolida a escravidão, o racismo permaneceu; declarado ou disfarçado, camuflado. Na primeira metade do século passado houve até um movimento pelo embranquecimento da população, baseado em uma pseudociência, a eugenia, que propunha o aperfeiçoamento da raça humana, tendo por base a premissa de que o homem, como os outros animais, sofreria evolução biológica. A tese foi difundida no I Congresso Brasileiro de Eugenia, realizado em 1918. Seus principais expoentes foram o antropólogo Nina Rodrigues; o ideólogo do Estado Novo getulista, Azevedo Amaral, e o jurista, professor, etnólogo, historiador e sociólogo Oliveira Viana. Para eles o caminho para o embranquecimento da população estaria no incentivo da imigração branca e na criação de barreiras para a entrada no país de migrantes não brancos. O resto ficaria por conta da natural mistura das raças, que resultaria no aumento do percentual de sangue europeu. Esse conceito foi incorporado às Constituições de 1934 e 1937, com a criação de cotas para a entrada de imigrantes, segundo suas nacionalidades, e “aperfeiçoado” pelo Decreto Lei 7.967, de 1945, que explicitava a “necessidade de preservar e desenvolver na composição étnica da população as características mais convenientes de sua ascendência europeia”.

A segregação racial tem reflexos econômicos e sociais. Com essa “herança” não é de se estranhar que, em cada três pobres, dois sejam negros, que eles sejam os mais atingidos pela violência, que sejam uma gritante minoria entre os portadores de títulos universitários, militares, funcionários públicos, magistrados etc. Por outro lado, são maioria entre os desempregados, os moradores das favelas e os analfabetos. Quando trabalham, ganham menos que os componentes de outras etnias e as mulheres negras são maioria entre as que trabalham em funções menos nobres. No mercado de trabalho do Rio Grande do Norte, “os homens negros valem menos que as mulheres brancas”. Tudo isso foi comprovado por um estudo da ONU sobre “Racismo, pobreza e violência” no Brasil.

Há no Brasil uma luta contra o racismo, porém muito leniente e enfrentando resistências até de onde não se esperava. Sérgio Camargo, um negro presidente da Fundação Cultural Palmares, taxou o movimento negro de nada mais nada menos que uma “escória maldita”.

Tribuna do Norte. Natal, 05 jul. 2020

Ainda tem quem leva Marx a sério

vinheta172

Tomislav R. Femenick – Historiador

 

            No meu tempo de estudante de pós-graduação na FGV e de mestrado na PUC, ambas em São Paulo, o clima entre professores e alunos era grandemente favorável à esquerda. Na FGV tínhamos como professores Bresser Pereira e Eduardo Suplicy; na PUC Paul Singer, Guido Mantega – só para ficar em poucos nomes. Nessa circunstância, o marxismo imperava, embora a maioria dos alunos quisessem aprendê-lo por osmose: andavam com os livros presos no sovaco, apertavam e achavam que assim aprenderiam a doutrina socialista. Foi o professor Chico de Oliveira quem me chamou a atenção para esse clima, pois, embora marxista, detestava a mediocridade e, por extensão, a imbecilidade. Chico era estruturalista e do marxismo aceitava apenas aquilo que ele via como factível, sendo o “etapismo” a maior bobagem doutrinária.

            De maneira geral, a análise do modo de produção tem sido mais uma tomada de posição, um discurso político, filosófico, partidário, ideológico ou dogmático do que propriamente um exame científico de uma realidade histórica, econômica e social. Sabe-se que as hipóteses e teorias das Ciências Sociais têm por base “interpretação da evidência, e a interpretação envolve um julgamento” e que todo “julgamento é marcado pelo preconceito” (ROBINSON, 1979). Talvez essa seja a explicação das muitas teorias que procuram apontar formações socioeconômicas e modos de produção diversos, como sendo os existentes ou predominantes.

Saindo da análise global das posições individuais dos diversos autores, devemos agora abordar a posição particular daqueles que aceitam e defendem, direta ou indiretamente, o “etapismo” ou gradualismo para o desenvolvimento das formações econômicas e sociais de todas as regiões da terra, apegando-se a conceitos da ortodoxia dita marxista, enquanto o próprio Marx afirmava que “acontecimentos notavelmente análogos que, no entanto, acontecem em meios históricos diferentes, conduzem a resultados totalmente distintos. Estudadas separadamente cada uma dessas formas de evolução e, depois, comparadas entre si, pode-se encontrar facilmente a chave do fenômeno, porém nunca se chegará a isso mediante o passaporte universal de uma teoria histórico-filosófica geral, cuja suprema virtude consista em ser supra-histórica” (MARX, 1947).

É certo que, se rastrearmos escritos de marxistas clássicos, encontraremos indicadores do “etapismo”. Engels foi o primeiro a apontar para o gradualismo, sendo seguido por Lenin; enquanto aquele tomou como campo teórico a Europa ocidental, este deu uma amplitude geral ao conceito dos degraus evolutivos. O “etapismo” foi sacramentado como dogma dessa corrente do marxismo por Stálin (STÁLIN, 1985), quando o dirigente soviético reconheceu como históricos somente “cinco tipos fundamentais de relações de produção: a comuna primitiva, a escravatura, o regime feudal, o regime capitalista e o regime socialista”. Os seguidores do pensamento oficial soviético viram-se, então, imbuídos do propósito de enquadrar o nosso país nesse quadro: foi o estopim da intentona de 1935. Interessante é que poucos autores tenderam a relacionar a formação econômica e social, o modo de produção ou as relações de produção das colônias escravistas da América com “a escravatura”, dita pelo dirigente soviético. Talvez porque Stálin tenha descrito esse regime como apenas a possibilidade de nele aparecerem as trocas entre indivíduos e grupos, a acumulação de riquezas, a acumulação real dos meios de produção e a submissão da maioria pela minoria. No Brasil, nos Estados do sul dos Estados Unidos e nas Antilhas essas não foram apenas possibilidades teóricas, mas sim realidade concreta: escravos produziam para o mercado.

Com a queda do muro de Berlin, em novembro de 1989, e a derrocada da hoje finada União Soviética, em dezembro de 1991, eu achava que teriam sobrevividos somente os saudosistas. Ledo engado, também sobreviveram os tresloucados.

Semana passado recebi um e-mail de alguém que leu o meu livro “Os Escravos: da escravidão antiga à escravidão moderna”. Não sei quem é, vez que o e-mail veio como se enviado por uma repartição pública, mas sei que é de alguém não muito honesto: usa de recursos públicos para suas bravatas e não tem coragem de mostrar a cara. A mensagem era curta e (como não poderia de ser) grossa: “Seu reacionário de merda, logo o Bozo cai e você vai sentir na pele por desrespeitar as ideários (sic) de Marx”. Não entendi nada. Embora tenha votado em Bolsonaro, na maioria das vezes discordo do procedimento dele e, além do mais, apontar os erros do sr. Karl Heinrich Marx é-me garantido pela Constituição.

Tribuna do Norte. Natal, 26 jun. 2020